Seja por sempre e em todas partes conhecido, adorado, bendito, amado, servido e glorificado o diviníssimo Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

"Roma perderá a Fé e se tornará a sede do Anticristo"

Nossa Senhora em La Salette

Attende Domine, et miserere, quia peccavimus tibi.

Pax Domini sit semper tecum

Item 4º do Juramento Anti-modernista São PIO X: "Eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi trazida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito que foi confiado à esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver indefinidamente" - JURAMENTO ANTI-MODERNISTA

____

Eu conservo a MISSA TRADICIONAL, aquela que foi codificada, não fabricada, por São Pio V no século XVI, conforme um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ORDO MISSAE de Paulo VI”. - Declaração do Pe. Camel.

____

Ao negar a celebração da Missa Tradicional ou ao obstruir e a discriminar, comportam-se como um administrador infiel e caprichoso que, contrariamente às instruções do pai da casa - tem a despensa trancada ou como uma madrasta má que dá às crianças uma dose deficiente. É possível que esses clérigos tenham medo do grande poder da verdade que irradia da celebração da Missa Tradicional. Pode comparar-se a Missa Tradicional a um leão: soltem-no e ele defender-se-á sozinho”. - D. Athanasius Schneider

"Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa (desde que não se falte à verdade), sendo obra de caridade gritar: Eis o lobo!, quando está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde seja encontrado".- São Francisco de Sales

“E eu lhes digo que o protestantismo não é cristianismo puro, nem cristianismo de espécie alguma; é pseudocristianismo, um cristianismo falso. Nem sequer tem os protestantes direito de se chamarem cristãos”. - Padre Amando Adriano Lochu

"MALDITOS os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável SALVADOR seja posto lado a lado com Buda e Maomé em não sei que panteão de falsos deuses". - Padre Emmanuel

quinta-feira, 6 de junho de 2013

São Teófilo de Antioquia - Terceiro Livro a Autólico

Capítulo I - Introdução
Teófilo a Autólico: Saudações. Os escritores querem escrever multidões de livros por vanglória; alguns sobre os deuses, as guerras e os tempos; outros sobre fábulas inúteis e trabalho vão, em que também tu te exercitaste até agora. Certamente não vacilas em suportar esse trabalho. Por outro lado, conversando conosco, ainda continuais crendo que a nossa doutrina da verdade é tolice, alegando que nossas Escrituras são recentes e novas. Diante disso tudo, eu também não vacilarei em tratar novamente, com a ajuda de Deus, desde o princípio, a questão da antiguidade de nossas Escrituras, a apresentantar-te um breve resumo, a fim de que não te enfades ao lê-lo e também conheças a inanidade dos outros autores.


Capítulo II - Os outros autores estão mal documentados
Os escritores deviam ter sido eles próprios testemunhas oculares do que afirmam ou ter sabido exatamente daqueles que viram, pois escrever sobre o incerto é, de algum modo, açoitar o ar. De que adiantou Homero ter descrito a guerra de Tróia e enganar a muitos, ou Esíodo na sua Teogonia ter feito o catálogo e descrito as origens daqueles que ele chama deuses? Ou Orfeu com os seus trezentos e sessenta e cinco deuses, que ele rejeita no fim da vida, pois afirma em seus Testamentos que existe um só Deus? De que adiantou a Arato a sua esferografia do céu cósmico ou para aqueles que tiveram as mesmas opiniões, a não ser ter alcançado entre os homens uma glória que nem sequer mereceram? O que eles disseram de verdadeiro? Que proveito tiveram Euripedes, Sófocles e os outros trágicos com suas tragédias, ou Menandro, Aristófanes e outros cômicos, ou Heródoto e Tucídides com sua histórias, ou Pitágoras com seus templos e as colunas de Hércules, ou Diógenes com sua filosofia cínica, ou Epicuro com seu dogmatismo contra a providência, ou Empédocles com suas doutrinas atéias, ou Sócrates com seus juramentos pelo cão, o ganso, o plátano e o fulminado Asclépio e pelos demônios a quem invocava? Além disso, por que morreu voluntariamente e que recompensa esperava receber depois da morte? De que serviu a Platão a educação que ele instituiu, ou de que serviram para os outros filósofos as suas doutrinas? Não farei a lista completa, pois são muitos. Dizemos isso para demonstrar o teor inútil e ateu de suas especulações.

Capítulo III - Os outros autores são mal inspirados
O fato é que, sendo todos ambiciosos de vanglória, nem eles conheceram a verdade, nem conduziram ou estimularam outros a ela. Eis que eles são acusados pelos seus próprios discursos, pois disseram coisas contraditórias e, além disso, a maioria deles destruiu suas próprias doutrinas. Isto é: não só lançaram por terra uns aos outros, mas alguns invadiram seus próprios dogmas, de modo que sua glória acabou na desonra e loucura, pois são condenados pelos homens inteligentes. Primeiro falaram dos deuses, e depois ensinaram o ateísmo; falaram sobre a origem do mundo e acabaram dizendo que o acaso é a lei universal; por fim, começam falando da providência, e depois dogmatizam que o mundo não tem providência. E o que mais? Não é certo que, tentando escrever sobre a pureza, ensinaram a praticar os mais odiosos atos de impudor? São justamente os seus deuses os primeiros que eles anunciam ter praticado as uniões desonestas e festins sacrílegos. Quem não canta Cronos como devorador de seus filhos? E Zeus, seu filho, que devora Métis e prepara abomináveis convites para os deuses? Depois, nos contam de um tal Efesto, coxo e ferreiro, que o serve à mesa; e de Hera, irmã de Zeus, que não só se casa com ele, mas também comete desonestidades com sua boca impura. Suponho que saibas das demais ações dele que os poetas cantam. Que necessidade tenho de enumerar o que se refere a Posêidon, a Apolo, Dionísio e Héracles, ou de Atena, a guerreira, e Afrodite, a desavergonhada? Disso tratamos mais detalhadamente em outro livro.

Capítulo IV - Caluniadores dos cristãos
Eu nem deveria estar refutando essas coisas, se não fosse porque te vejo agora duvidando sobre a doutrina da verdade. Mesmo sendo sensato, suportas de boa vontade os ignorantes. De outra forma, não terias deixado desviar-te pelos vãos discursos de homens insensatos, nem acreditado nesse boato preconceituoso de bocas ímpias, que mentirosamente caluniam a nós, que adoramos a Deus e nos chamamos cristãos, espalhando que temos mulheres em comum e que não nos importamos com quem nos unimos; além disso, dizem que mantemos relação carnal com nossas próprias irmãs e, o que é mais ímpio e cruel, que nos alimentamos de carnes humanas. Dizem ainda que nossa doutrina é recente e que nada temos para alegar como demonstração de nossa verdade e ensinamento. Por fim, dizem que toda a nossa doutrina é pura loucura. Ora, mais do que tudo, fico admirado contigo, pois sendo no resto diligente e pesquisador de todas as coisas, somente a nós ouves com descuido, tu que, tendo possibilidade, não hesitarias em passar até as noites nas bibliotecas!

Capítulo V - Como levar isso a sério?
Muito bem. Já que leste muito, que achas dos conteúdos do livro de Zenão, de Diógenes e de Cleantes, que ensinam a antropofagia, dizendo que os pais devem ser cozidos por seus próprios filhos e comidos por estes, e que se alguém se nega a comer ou joga um membro qualquer dessa abominável comida, deve-se comer aquele que não come? Ainda se encontra uma voz mais ímpia, a de Diógenes, que ensina os filhos a levar seus próprios pais para serem sacrificados e depois comê-los. O que mais? O historiador Heródoto não conta que Cambises degolou os filhos de Harpago e os serviu cozidos para o pai? Também conta que entre os indianos os pais são comidos por seus filhos. Que ímpio ensinamento dessas pessoas que registram tais coisas e até as professam! Que impiedade o ateísmo, que especulações, daqueles que filosofam tão acuradamente e propagam filosofia. Com efeito, os que espalham tais doutrinas encheram o mundo de impiedade.

Capítulo VI - Como levar isso a sério? (cont.)
De fato, no que se refere à união ilegítima, todos os que se extraviaram no coro dos filósofos estão de acordo. Em primeiro lugar Platão, que dentre eles parece ser o que filosofou com mais profundidade. No livro primeiro da República legisla expressamente, digamos assim, que as mulheres de todos devem ser comuns, alegando o exemplo de Minos, filho de Zeus e legislador dos cretenses, a fim de que, sob esse pretexto, os nascimentos sejam numerosos e que, com tais costumes, sejam consolados os que se acham tristes. Além disso, Epicuro, não contente de ensinar o ateísmo, aconselha a relação carnal com mães e irmãs, mesmo transgredindo as leis que o proíbem. Sólon também legislou com toda clareza sobre isso, dizendo que os filhos devem nascer de matrimônio legítimo e não de adultério, para que não se honre como pai aquele que não é pai e se desonre, por ignorância, aquele que o é. Digamos o mesmo do resto que as leis dos romanos e gregos proíbem. Então, com que finalidade Epicuro e os estóicos afirmam como dogma as uniões de irmãos e a pederastia e encheram as bibliotecas com esses ensinamentos, para que se aprenda a união ilegítima desde criança? Não compensa, porém, gastar o tempo com isso, pois propagam coisas semelhantes a respeito do que eles chamam deuses.

Capítulo VII - Como levar isso a sério? (cont.)
Com efeito, depois de afirmar a existência dos deuses, em seguida os reduzem a nada. Porque uns afirmaram que se compõem de átomos; outros, que vão dar nos átomos e que eles não têm mais poder do que os homens. Platão, depois de dizer que os deuses existem, quer que eles sejam compostos de matéria. Pitágoras, que se fatigou tanto sobre o problema dos deuses, que viajou de um lado para outro, por fim separa a natureza e diz que é o acaso que rege tudo e que os deuses não se importam em nada com os homens. E o que excogitou o acadêmico Clitômaco para demonstrar o ateísmo! O que falar de Crítias e Protágoras de Abdera, que diz: "Sobre os deuses, não posso dizer se existem, nem manifestar qual seja sua natureza, pois existem muitas coisas que me impedem". Seria supérfluo citar as teorias do ímpio Evêmero que, atrevendo-se a falar longamente sobre os deuses, termina dizendo que absolutamente não existem, e quer que tudo seja governado pelo puro acaso. Platão, que falou tantas coisas sobre a monarquia de Deus e sobre a alma do homem, afirmando que ela é imortal, depois também não se contradiz, dizendo que as almas emigram para outros homens e que as almas de alguns vão parar até em animais irracionais? Como é que tal doutrina não se mostrará funesta e sacrílega para os que possuem inteligência sã, isto é, que quem foi homem se transforme em lobo, cão, asno ou qualquer outro animal irracional? Encontramos tolices semelhantes naquilo que Pitágoras disse, além de eliminar a providência. Então, em que vamos acreditar? No cômico Filêmon, que diz: "Porque os que honram a Deus têm belas esperanças de salvar-se", ou nos citados Evêmero, Epicuro, Pitágoras e outros que negam haver religião e destroem a providência? Em todo caso, eis o que Ariston diz sobre Deus e a providência:
"- Coragem! É costume de Deus ajudar aqueles que o merecem e de modo poderoso. De fato, se não existisse uma preeminência estabelecida para os que vivem como se deve, para que serviria a religião?
- Deveria ser assim, mas com muita freqüência vejo aqueles que se decidem viver religiosamente fazê-lo de modo estranho, enquanto os que buscam apenas o próprio interesse levam existência mais honrosa que nós.
- Talvez no presente. Contudo, é preciso olhar mais longe e esperar a transformação de todas as coisas. Esta não será como na opinião funesta e perniciosa à vida, que se fortaleceu entre alguns, segundo a qual tudo é puro ímpeto do acaso e tudo se decide conforme aparece. Sem dúvida, os ímpios julgam que isso traz vantagem para seus próprios interesses. Entretanto, há também uma preeminência para os que vivem santamente e para os ímpios, como convém, um desejo. Porque sem providência não acontece nada".
Quanto ao que os outros disseram sobre Deus e a providência, e pode-se dizer que são a maioria, pode se ver como suas doutrinas são contraditórias. Uns eliminaram completamente Deus e a providência; outros, ao contrário, admitem Deus e confessam que tudo é governado por uma providência. Portanto, o ouvinte ou leitor inteligente deve prestar acurada atenção ao que se diz, de acordo com Similo: "Comumente se costuma chamar de poetas tanto aqueles que são naturalmente mal dotados e os de excelentes dotes. Dever-se-ia fazer distinção". A mesma coisa Filêmon: "É insuportável um ouvinte néscio ali sentado. Por sua tolice nunca repreende a si mesmo". Deve-se, portanto, prestar atenção e compreender o que se diz, examinando anteriormente as afirmações dos filósofos e demais poetas.

Capítulo VIII - Como levar isso a sério? (cont.)
De fato, começam negando a existência dos deuses, depois a confessam e nos contam que eles praticam ações abomináveis. Zeus é o primeiro. Aí estão os poetas que proclamam suas ações em versos melodiosos. Não foi o grande charlatão de Crisipo que mostrou que Hera uniu-se a Zeus por sua impura boca? Para que enumerar as impudicícias da chamada mãe dos deuses, ou de Zeus Lacial, sedento de sangue humano, ou de Atis, o mutilado? Ou aquele Zeus, com o sobrenome de Trágico, que queimou sua própria mão, como dizem, e agora é honrado como deus entre os romanos? Passo em silêncio os templos de Antino e dos outros pretensos deuses. Essas histórias todas são motivo de riso para os homens inteligentes. Na verdade, os que professam tal filosofia são levados ao ateísmo por suas próprias doutrinas, assim como à poligamia e à inversão. Além disso, em seus escritos encontrase a antropofagia, e os primeiros que fizeram tudo isso são os deuses que eles honram.

Capítulo IX - Excelência da moral cristã
Nós, porém, confessamos a Deus, mas um só, o criador, o autor e artífice de todo este mundo, e sabemos que tudo é governado por sua providência, mas somente pela sua. E aprendemos uma lei santa, mas temos como legislador o verdadeiro Deus, que nos ensina a agir justa, religiosa e santamente. Sobre a religião e a piedade ele diz: "Não terás deuses estranhos além de mim. Não fabricarás para ti imagem alguma de tudo o que há acima no céu, nem abaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não os adorarás, nem os servirás, porque eu sou o Senhor teu Deus". Sobre o agir santamente ele diz: "Honra teu pai e tua mãe, para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra que eu te dou, eu o Senhor Deus". E sobre a justiça: "Não cometerás adultério. Não matarás. Não roubarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem a sua casa, nem o seu campo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem qualquer animal seu, nem qualquer coisa que pertença ao teu próximo. Não distorcerás o julgamento ao julgar o pobre. Tu te afastarás de toda palavra injusta. Não matarás o inocente e justo. Não absolverás o ímpio, nem aceitarás suborno, pois o suborno cega os olhos dos que vêem e destroem as palavras justas". O ministro dessa lei santa foi Moisés, também servo de Deus. Foi dada para o mundo inteiro, embora primeiro para os hebreus, também chamados judeus. O rei do Egito os havia reduzido à escravidão, apesar de serem uma descendência justa de homens religiosos e santos, de Abraão, de Isaac e Jacó. Deus, porém, lembrou-se deles e, realizando maravilhas e prodígios por meio de Moisés, libertou-os milagrosamente e os tirou do Egito, conduzindo-os através do assim chamado deserto, e finalmente os estabeleceu na terra de Canaã, que depois foi chamada Judéia, deu-lhes a lei e lhes ensinou tudo isso. Os dez pontos principais dessa grande e admirável lei, que vale para toda a justiça, são os que acabamos de citar.

Capítulo X - Excelência da moral cristã (cont.)
Os judeus residiram no Egito como estrangeiros, pois de raça eram hebreus procedentes da Caldéia. Tendo havido naquele tempo uma fome, tiveram que emigrar para o Egito, a fim de comprar mantimentos e com o tempo aí se estabeleceram. Então aconteceu a eles conforme a predição de Deus. Depois de viverem como forasteiros no Egito durante quatrocentos e trinta anos, quando Moisés os levou para o deserto, Deus lhes ensinou por meio da lei, dizendo: "Não oprimirás o estrangeiro, porque vós conheceis a alma do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito".

Capítulo XI - Excelência da moral cristã (cont.)
Ora, o povo transgrediu a lei que lhe fora dada. Deus, porém, que é bom e misericordioso, não querendo que perecessem, além de ter-lhes dado a lei, mandou-lhes depois profetas dentre seus irmãos, para que lhes ensinassem e recordassem as coisas da lei e levá-los à penitência para que não pecassem mais. Contudo, como eles se obstinassem em suas más ações, os profetas lhes predisseram que seriam submetidos a todos os remos da terra. E é evidente que isso lhes aconteceu. Portanto, sobre a penitência, o profeta Isaias diz a todos em geral, mas particularmente ao povo: "Buscai o Senhor e, ao encontrá-lo, invocai-o. Quando ele se aproximar de vós, que o ímpio abandone os próprios caminhos e o homem iníquio seus conselhos, e convertam-se ao Senhor seu Deus. Ele se compadecerá e largamente perdoará os vossos pecados". Ezequiel, outro profeta, diz: "Se o iníquo se converte de todas as iniqüidades que praticou, guarda os meus mandamentos e pratica a minha justiça, viverá com vida e não morrerá; não se lembrará de todas as iniqüidades que praticou, mas viverá pela justiça que praticou, porque eu não quero a morte do iníquo, diz o Senhor, e sim que ele se converta de seu mau caminho e viva". E Isaías acrescenta: "Convertei-vos, vós que alimentais um desígnio que conduz ao abismo e ao crime, para que vos salveis". E Jeremias diz: "Convertei-vos ao Senhor vosso Deus, como o vindimador ao seu cesto, e encontrareis misericórdia". Muitas outras coisas, ou melhor, coisas inumeráveis dizem as santas Escrituras sobre a penitência, pois Deus sempre quer que o gênero humano se converta de todos os seus pecados.

Capítulo XII - Excelência da moral cristã (cont.)
Além disso, sobre a justiça de que a lei fala, vemos que os profetas e os evangelhos estão de acordo, pois todos, portadores de espírito, falaram pelo único Espírito de Deus. Isaias diz o seguinte: "Tirai as maldades de vossas almas, aprendei a fazer o bem, buscai o direito, libertai o oprimido, julgai o órfão e fazei justiça à viúva". E ainda: "Desata as amarras da iniqüidade, rompe os laços dos contratos violentos, deixa ir os oprimidos em liberdade, rasga todo contrato injusto, reparte o teu pão com o faminto e recolhe em tua casa os mendigos sem teto. Se vês alguém nu, veste-o, e não te afastes com desprezo daqueles que pertencem à tua própria descendência. Então a tua luz brilhará como a aurora, tuas feridas logo serão curadas e tua justiça caminhará diante de ti". De modo semelhante Jeremias diz: "Parai nos caminhos, olhai e perguntai qual é o caminho do Senhor vosso Deus, o caminho bom; caminhai por ele e encontrareis descanso para vossas almas. Daí sentenças justas, porque essa é a vontade do Senhor vosso Deus". De modo semelhante também Oséias diz: "Observai o direito e aproximai-vos do Senhor vosso Deus, que firmou o céu e alicerçou a terra". Joel, outro profeta, de acordo com eles, diz: "Reuni o povo, santificai a assembléia, recebei os anciãos, juntai as crianças que mamam nos peitos; que o esposo saia de seu quarto nupcial e a esposa de seu leito; rogai com insistência ao Senhor vosso Deus, a fim de que ele se compadeça de vós, e ele apagará vossos pecados". Do mesmo modo Zacarias, outro profeta, diz: "Eis as palavras do Senhor Onipotente: julgai com verdadeira justiça e cada um pratique a misericórdia e a compaixão com o seu próximo; não oprimais a viúva, o órfão e o estrangeiro; não guardeis rancor em vossos corações contra o vosso irmão, diz o Senhor Onipotente".

Capítulo XIII - Excelência da moral cristã (cont.)
Quanto à pureza, a palavra santa não só nos ensina a não pecar por atos, mas também por pensamento, sequer pensar em nosso coração sobre alguma coisa má ou desejar a mulher alheia, olhando-a com os olhos. Com efeito, Salomão, que foi rei e profeta, diz: "Que teus olhos vejam o que é reto e tuas pálpebras se inclinem para o que é justo; que teus pés só percorram o caminho reto". E a voz do Evangelho diz ainda mais expressamente sobre a castidade: "Todo aquele que olha a mulher alheia para desejá-la, já cometeu adultério com ela em seu coração. Aquele que se casa com a que foi repudiada por seu marido, comete adultério; e aquele que repudia sua mulher, exceto pelo motivo de fornicação, faz com que ela cometa adultério". Salomão diz ainda: "Pode alguém carregar fogo em sua veste e não queimar a sua roupa? Ou caminhar sobre brasas e não queimar os pés? Do mesmo modo, quem entra na casa da mulher casada não será inocente".

Capítulo XIV - Excelência da moral cristã (cont.)
Quanto a não termos benevolência apenas com os de nosso próprio grupo, como pensam alguns, o profeta Isaias diz: "Dizei aos que vos odeiam e abominam: 'Sois nossos irmãos', a fim de que seja glorificado o nome do Senhor e seja visto na alegria deles". E o Evangelho diz: "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos caluniam. Com efeito, se amais os que vos amam, que recompensa tendes? Também os salteadores e publicanos fazem isso". Aos que praticam o bem, ele os ensina a não se glorificar, a fim de não agradarem aos homens: "Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita". A palavra divina também manda que nos submetamos aos magistrados e autoridades e a orar por eles, a fim de levar uma vida calma e tranqüila. Também nos ensina a dar a todos o que lhes convém. A honra, a quem se deve a honra; o temor, a quem se deve o temor; o tributo, a quem se deve o tributo; e não dever nada a ninguém, mas apenas amar a todos.

Capítulo XV - Acusações precipitadas
Considera, portanto, se aqueles que recebem tais ensinamentos podem viver indiferentemente ou manchar-se com uniões ilegítimas, ou então, o que supera toda impiedade, alimentar-se de carnes humanas. Na verdade, somos proibidos até de assistir aos espetáculos de gladiadores, a fim de não participarmos e não nos tornarmos cúmplices daquelas mortes. Também não devemos ver os outros espetáculos, para que nossos olhos e ouvidos não fiquem impuros ao participar do que ali se canta. De fato, se se fala de antropofagia, ali são devorados os filhos de Tiestis e Tereu; se se fala de adultério, ali se representam tragédias em que não só os homens as cometem, mas também os próprios deuses. Coisas que são contadas em versos melodiosos e não sem honras e prêmios. Longe dos cristãos sequer passar-lhes pelo pensamento fazer essas coisas. Entre eles há temperança, exercita-se a continência, observa-se a monogamia, guarda-se a castidade, aniquila-se a injustiça, arranca-se o pecado pela raiz, medita-se a justiça, cumpre-se a lei, pratica-se a religião, confessa-se a Deus, a verdade decide como árbitro, a graça guarda, a paz protege, a palavra santa dirige, a sabedoria ensina, a vida decide e Deus reina. Poderíamos dizer muito mais coisas sobre o comportamento que se vive entre nós e sobre as justificaçôes de Deus, artífice de toda criatura. Por enquanto, porém, basta o que recordamos, a fim de que tu o saibas, sobretudo pelo que lês até agora e, já que foste estudioso até o presente, o sejas também daqui para frente.

Capítulo XVI - Antiguidade da tradição cristã
Quero agora mostrar-te com mais precisão, com a ajuda de Deus, nossa posição no tempo, para que reconheças que a nossa doutrina não é recente, e nem fabulosa, e sim mais antiga e verdadeira do que todos os poetas e historiadores que escreveram sobre o incerto. Uns, dizendo que o mundo era incriado, terminaram no infinito; outros, que o disseram criado, falaram que já se haviam passado quinze miríades e três e setecentos e cinco anos. Isso é contado por Polônio, o egípcio. Platão, que parece ter sido o mais sábio dos gregos, por quantas tolices não enveredou? Na chamada República encontra-se literalmente: "Se as coisas permaneceram o tempo todo dispostas como estão agora, como se poderia encontrar alguma coisa de novo? É que durante uma miríade de miríades de anos as pessoas não perceberam o tempo e só há mil ou dois mil anos tornaram-se manifestas as primeiras descobertas, umas por Dédalo, outras por Orfeu, e outras por Palamedes". Dizendo que assim aconteceu, ele mostra que do dilúvio até Dédalo passou-se uma miríade de miríades de anos. Depois de falar longamente de cidades espalhadas pelo mundo, de habitantes e povos, ele confessa que falou de tudo isso por conjectura. De fato, ele diz: "Em todo caso, estrangeiro, se um deus nos prometesse começar de novo as discussões sobre as leis, das palavras agora ditas..." É claro que falou por conjectura e, se falou por conjectura, o conseqüentemente que ele disse não é verdade.

Capítulo XVII - Necessidade da inspiração
Portanto, vale mais tornar-se discípulo da lei divina. O próprio Platão reconheceu o que não é possível aprender de outra maneira que é exato, a não ser que Deus nos ensine pela lei. Além disso, os próprios poetas Homero, Hesíodo e Orfeu não disseram que foram ensinados pela presciência divina? E dizem ainda que no tempo dos historiadores houve adivinhos e conhecedores do futuro e que aqueles que aprenderam com eles escreveram com exatidão. Tanto mais não saberemos nós a verdade, que aprendemos com os santos, profetas, os quais receberam o santo Espírito de Deus? É por isso que todos os profetas disseram coisas que concordavam entre si e anunciaram de antemão o que deveria acontecer para todo o mundo. Com efeito, o cumprimento das coisas anteriormente anunciadas e que agora se realizam pode muito bem ensinar aos estudiosos, ou melhor, aos amantes da verdade, que também são verdade as coisas por eles ditas a respeito dos tempos e situações anteriores ao dilúvio, desde a criação do mundo até hoje, junto com a computação dos anos, demonstrando assim a charlatanice enganadora dos historiadores e que não é verdade o que estes disseram.

Capítulo XVIII - A história do dilúvio
Platão, como dissemos antes, depois de afirmar que houve dilúvio, disse que não atingiu toda a terra, mas só as planícies, e que os que fugiram para as montanhas mais altas se salvaram. Outros dizem que existiram Deucalião e Pirra, que somente estes se salvaram numa arca, e que Deucalião, depois de sair da arca, foi jogando pedras para trás e que dessas pedras nasceram homens. Dizem que é daí que vem o nome "povos" dado à multidão de homens. Outros disseram que Climeno existiu por ocasião do segundo dilúvio. É evidente que aqueles que escreveram essas coisas e assim inutilmente filosofaram sejam miseráveis, totalmente ímpios e néscios. Ao contrário, nosso profeta explicou como aconteceu o dilúvio, sem ter que inventar um Deucalião, ou uma Pirra, ou Climeno, nem que se deu apenas nas planícies e salvando-se somente os que se refugiaram nas montanhas.

Capítulo XIX - A história do dilúvio (cont.)
Também não disse que houve um segundo dilúvio; ao contrário, disse que não acontecerá no mundo outro dilúvio de água, como de fato não houve, nem haverá. Conta que foram oito pessoas que se salvaram na arca, construída por ordem de Deus não através de Deucalião, mas por aquele que em hebraico se chama Noé e é interpretado em grego como "descanso". Em outro livro, mostramos como Noé, anunciando aos homens que o dilúvio viria, profetizou-lhes, dizendo: "Vinde, Deus vos chama à penitência". Por isso, com toda a propriedade, foi chamado Deucalião. Esse Noé tinha três filhos, como mostramos no segundo livro, cujos nomes eram Sem, Cam e Jafé. Cada um deles tinha sua mulher, assim como Noé tinha a sua. Alguns dão o nome de Eunuco a esse homem. Portanto, no total, se salvaram oito vidas humanas, aquelas que se encontravam na arca. Moisés mostrou que o dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites, durante os quais as cataratas do céu se romperam e todas as fontes do abismo jorraram, de modo que a água se ergueu quinze côvados acima dos montes mais altos. Desse modo todo o gênero humano então existente pereceu, salvando-se apenas os oito que foram preservados na arca, dos quais falamos antes. Os restos dessa arca até hoje são mostrados nos montes da Arábia. Essa é, em resumo, a história do dilúvio.

Capítulo XX - Data de Moisés
Como já dissemos antes, Moisés conduziu os judeus, quando estes foram expulsos do Egito pelo rei faraó, cujo nome é Tetmósis. Segundo dizem, depois da expulsão do povo, este reinou vinte e cinco anos e quatro meses, conforme a contagem de Maneton. Depois dele, Cebron reinou treze anos; depois deste, reinou Amenófis por vinte anos e sete meses; depois deste, sua irmã Amesa reinou vinte e um anos e um mês; depois dela, Mefres reinou doze anos e nove meses; depois, Meframutósis reinou vinte anos e dez meses; depois deste, Titmósis reinou nove anos e oito meses; depois deste, Damfenófis reinou trinta anos e dez meses; depois deste, Oros reinou trinta e cinco anos e cinco meses; a filha deste reinou dez anos e três meses; depois dela, reinou Merqueres durante doze anos e três meses; depois, Armais reinou quatro anos e um mês; depois deste, Ramsés reinou um ano e quatro meses; depois Messes, filho de Miamo, reinou seis anos e dois meses; depois deste, Amenófis reinou dezenove anos e seis meses; depois Seto e Ramsés, que reinaram dez anos, os quais tinham fama de possuir grandes forças de cavalaria e grande frota em seu tempo. Quanto aos hebreus, que naquele tempo viviam como forasteiros no Egito, submetidos à escravidão pelo rei Tetmósis, do qual falamos, construíram para ele as cidades fortificadas de Peito, Ramesen e On, que é Heliópolis. Assim se demonstra que os hebreus são mais antigos do que as mais famosas cidades daquela época entre os egípcios. Eles são os nossos antepassados e deles recebemos também os livros sagrados que são, como já dissemos, mais antigos do que todos os historiadores. O Egito deriva seu nome do rei Seto, pois dizem que Seto equivale a Egito. Seto tinha um irmão chamado Armais. É este que é chamado de Dânaos, e foi ele que veio do Egito para Argos; dele fazem menção todos os historiadores como sendo muito antigo.

Capítulo XXI - Data de Moisés (cont.)
O egípcio Maneton, depois de muitas tolices e até injúrias contra Moisés e os hebreus que o acompanhavam, insinuando que foram expulsos do Egito como leprosos, não soube dizer exatamente a época. Chamando os hebreus de pastores e inimigos dos egípcios, disse que eram pastores forçados, convencido pela verdade. De fato, nossos antepassados foram pastores, habitando como peregrinos no Egito, mas não leprosos. Com efeito, ao chegarem à terra chamada Jerusalém, onde em seguida habitaram, é claro como seus sacerdotes, que permaneciam no templo por ordem de Deus, curavam toda enfermidade, entre elas a lepra e qualquer outro defeito. O templo foi construído por Salomão, rei da Judéia. É evidente que Maneton se equivoca na cronologia por suas próprias palavras, e também a respeito de quem os expulsou, cujo nome era Faraó. Ele não reinou mais sobre os egípcios, pois, saindo em perseguição aos hebreus, afogou-se com o seu exército no mar Vermelho. Ele também se equivoca dizendo que aqueles que ele chama de pastores, guerrearam contra os egípcios, porque eles saíram do Egito e povoaram a terra que agora se chama Judéia, trezentos e treze anos antes da chegada de Dânaos a Argos. E claro que este é tido como o mais antigo pela maior parte dos escritores gregos. Através de seus escritos, mesmo sem querer, Maneton disse a verdade em dois pontos: em tê-los chamado de pastores e afirmado que saíram do Egito. Por esses dados fica demonstrado que Moisés e os seus são novecentos ou mil anos anteriores à guerra de Tróia.

Capítulo XXII - Data do templo
Sobre a construção do templo da Judéia, edificado pelo rei Salomão quinhentos e sessenta e seis anos depois da saída do Egito, entre os tírios se guardam documentos de como ele foi construído; nos arquivos deles conservam-se escritos onde consta que o templo foi construído cento e trinta e quatro anos e oito meses antes da fundação de Cartago pelos tírios. Esses documentos foram consignados pelo rei dos tírios chamado Hiéramo ou Hiram, filho de Abibal, rei dos tírios, pois este, por tradição paterna, tornou-se amigo de Salomão, também por causa da extraordinária sabedoria de Salomão. Um e outro se exercitavam continuamente com os problemas e disso dão testemunho as cartas que dizem ainda estar conservadas entre os tírios; e também enviavam escritos um ao outro. O mesmo é lembrado por Menandro de Éfeso em suas histórias dos reis de Tiro, onde ele diz: "Quando morreu Abibal, rei dos tírios, seu filho Hieromo herdou o reino e viveu cinqüenta e três anos. A este sucedeu Bazoro, que viveu quarenta e três anos e reinou dezessete. Depois dele, veio Metnastarto, que viveu cinqüenta e quatro anos e reinou nove. Os quatro filhos de sua nutriz conspiraram contra ele e o mataram; o maior dos conjurados reteve a coroa durante doze anos. Depois deles, Astarto, filho de Deliostarto, viveu cinqüenta e quatro anos e reinou doze. Depois dele, seu irmão Atárimo viveu cinqüenta e oito anos e reinou nove. Este foi morto pelo seu irmão chamado Heles, que viveu cinqüenta anos e reinou oito. Foi morto por Iutobal, sacerdote de Astarte, que viveu cinqüenta anos e reinou doze. Depois dele, veio seu filho Bazoro, que viveu quarenta e cinco anos e reinou sete. Meten, filho deste, viveu trinta e dois anos e reinou vinte e nove. A ele sucedeu Pigmalião, que viveu cinqüenta e seis anos e reinou sete. No sétimo ano do seu reinado, sua irmã fugiu para a Líbia e edificou a cidade que até hoje se chama Cartago". Portanto, todo o tempo que vai desde o reinado de Hieromo até a fundação de Cartago se reduz a cento e cinqüenta e cinco anos e oito meses. O templo foi edificado em Jerusalém no ano doze do reinado de Hieromo, de modo que o tempo que vai da edificação do templo até a fundação de Cartago é de cento e trinta e três anos e oito meses.

Capítulo XXIII - Data do ultimo profeta / Cronologia do mundo
Basta o que dissemos sobre o testemunho dos fenícios e egípcios, tal como aparece nas histórias escritas sobre nossas antiguidades pelo egípcio Maneton, pelo efésio Menandro e pelo próprio Josefo, o cronista da guerra dos judeus, feita contra eles pelos romanos. Através desses antigos demonstram-se que os escritos dos outros são posteriores aos que nos foram dados por Moisés e mesmo aos dos profetas posteriores. De fato, o último dos profetas, chamado Zacarias, exerceu sua atividade no reinado de Dano. Também vemos que os legisladores editaram suas leis posteriormente. Com efeito, se se cita Sólon, o ateniense, este viveu nos tempos dos reis Ciro e Dano, contemporâneo do profeta Zacarias e até muitos anos posterior. Se se trata dos legisladores Licurgo, Draco ou Minos, nossos livros sagrados ganham deles em antiguidade, pois demonstra-se que os escritos da lei divina, que nos foi dada por Moisés, são anteriores ao próprio Zeus, rei dos cretenses, e até à guerra de Tróia. Todavia, para fazer uma demonstração mais exata de toda essa cronologia, vamos, com a ajuda de Deus, traçar a história não só dos tempos anteriores ao dilúvio, mas também dos posteriores. Daremos, no que for possível, o número de todos eles, remontando à própria origem da criação do mundo, tal como foi consignada por Moisés, servo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Com efeito, depois de falar da criação e origem do mundo, do primeiro homem e do que aconteceu depois, ele também indicou os anos que se passaram antes do dilúvio. De minha parte, peço a graça do único Deus para dizer com exatidão toda a verdade, conforme a sua vontade, a fim de que também tu e todo aquele que ler isto seja guiado pela verdade e pela sua graça. Vou, portanto, começar pelas genealogias que foram consignadas, isto é, desde o primeiro homem, que serve de ponto de partida.

Capítulo XXIV - Cronologia do Mundo (cont.)
Adão, até ter o seu primeiro filho, viveu duzentos e trinta anos; seu filho Set viveu duzentos e cinco anos. Enós, filho deste, viveu cento e noventa anos; Cainã, filho deste, cento e setenta; Malaleel, filho deste, cento e sessenta e cinco; Jareta, filho deste, cento e sessenta e dois; Henoc, filho deste, cento e sessenta e cinco; Matusala, filho deste, cento e sessenta e sete; Lamec, filho deste, cento e oitenta e oito; este gerou o já mencionado Noé, que, com quinhentos anos, gerou Sem. No seu tempo, quando tinha seiscentos anos, aconteceu o dilúvio. Portanto, o total de anos até o dilúvio é de dois mil, duzentos e quarenta e dois anos. Logo depois do dilúvio, Sem, com cem anos, gerou Arfaxad. Com cento e trinta e cinco anos, Arfaxad gerou Sala. Aos cento e trinta anos, Sala teve o filho Héber, e este por sua vez gerou aos cento e trinta e quatro anos. Da descendência dele veio a denominação de hebreus. Seu filho Faleg foi pai aos cento e trinta anos. Ragã, filho deste, foi pai aos cento e trinta e dois anos; Nacor, filho deste, foi pai aos setenta e cinco; Tarra, filho deste, foi pai aos setenta; Abraão, filho deste, foi o nosso patriarca e gerou Isaac aos cem anos. Antes de ter filhos, Isaac viveu sessenta anos e gerou Jacó. Jacó viveu cento e trinta anos, até a emigração para o Egito, antes mencionada, e a permanência dos hebreus no Egito durou quatrocentos e trinta anos. E depois de sair da terra do Egito, passaram quarenta anos no deserto. Portanto, o total de anos é de três mil novecentos e trinta e oito. Depois que Moisés morreu, sucedeu-lhe no comando Josué, filho de Nave, que os chefiou durante vinte e sete anos. Depois de Josué, o povo transgrediu os mandamentos de Deus e ficou submetido por oito anos ao rei da Mesopotâmia, chamado Cusaraton. Depois o povo se arrependeu e teve juízes: Gotonoel, durante quarenta anos; Eglon durante dezoito; Aot durante oito. Depois, por causa de seus pecados, foram durante vinte anos dominados pelos estrangeiros. Em seguida, Débora os julgou durante quarenta anos. Depois os madianitas os dominaram por sete anos. Gedeão os julgou quarenta; Abimelec três; Tola vinte e três; Jair vinte e dois. Depois os filisteus e os amonitas os dominaram durante dezoito anos. Depois Jefté os julgou por seis anos, Esbon sete, Ailon dez, Abdon oito anos. Depois os estrangeiros os dominaram por quarenta anos. Depois Sansão os julgou vinte anos e, em seguida, tiveram paz durante quarenta anos. Depois Samera os julgou um ano, Heli vinte e Samuel doze anos.

Capítulo XXV - Cronologia do Mundo (cont.)
Depois dos juízes, houve reis entre eles. O primeiro deles foi Saul, que reinou vinte anos; depois Davi, nosso antepassado, que reinou quarenta anos. Portanto, o total de anos até Davi é de quatrocentos e noventa e oito. Depois desses, reinou Salomão durante quarenta anos, que foi o primeiro a construir o templo de Jerusalém, conforme o desígnio de Deus. Depois dele, Roboão reinou dezessete anos; depois deste, Abias sete; depois deste, Asa quarenta; depois deste, Josafá vinte e cinco; depois deste, Jorão oito; depois deste, Ocozias um; depois deste, Gotolia seis; depois deste, Joás quarenta; depois deste, Amasis trinta e nove; depois deste, Ozias cinqüenta e dois; depois deste, Manassés cinqüenta e cinco; depois deste, Amós dois; depois deste, Josias trinta e um; depois deste, Ocas três meses; depois deste, Joaquim onze anos; depois deste, outro Joaquim três meses e dez dias; depois deste, Sedecias onze anos. Depois dos reis, como o povo continuava em seus pecados e não se convertia, segundo o profeta Jeremias, subiu até a Judéia um rei da Babilônia, chamado Nabucodonosor, levou o povo judeu para a Babilônia e destruiu o templo edificado por Salomão. O povo permaneceu setenta anos no exílio da Babilônia. Portanto o total de anos até o estabelecimento na Babilônia é de quatro mil, novecentos e cinqüenta e quatro anos. Contudo, do mesmo modo como Deus, através do profeta Jeremias, predissera que o povo viveria exilado na Babilônia, também anunciou de antemão que voltariam para a sua terra depois de setenta anos. Cumpridos os setenta anos, veio Ciro, rei dos persas, que, conforme a profecia de Jeremias, no segundo ano de seu reinado, emanou por escrito um decreto, pelo qual todos os judeus existentes em seu reino voltariam para seu país e reedificariam a Deus o templo destruído pelo mencionado rei da Babilônia. Além disso, por disposição de Deus, Ciro ordenou a seus próprios guardas Sabessaro e Mitrídates para que os utensílios tomados por Nabucodonosor do templo da Judéia fossem devolvidos e recolocados no templo. Assim, no segundo ano de Dano, cumpriram-se os setenta anos preditos por Jeremias.

Capítulo XXVI - Transcendência da história sagrada
Pode-se ver, assim, como nossos livros sagrados são mais antigos e mais verdadeiros que os dos historiadores gregos, egípcios ou de outros. Na verdade, Heródoto, Tucídides e os outros historiadores costumam iniciar seus relatos mais ou menos nos reinados de Ciro e Dano, por não poderem dizer nada de exato sobre épocas anteriores. O que é que disseram de grande, se apenas nos falaram de Dano e Ciro, reis bárbaros; entre os gregos, de Sópiro e Hípias; das guerras de atenienses e lacedemônios; das façanhas de Xerxes e Pausânias, que quase morre de fome no templo de Atenas; de Temístocles e da guerra do Peloponeso; de Alcebíades e Trasíbulo? Não nos interessa assunto de muitas palavras, mas esclarecer a quantidade de tempo passado desde a constituição do mundo, convencendo da inanidade e charlatanice os historiadores, pois não se trata, como disse Platão, de duas miríades de miríades de anos desde o dilúvio até seu tempo, nem de quinze miríades, trezentos e setenta e cinco anos, como dissemos que afirma o egípcio Apolônio. O mundo também não é incriado, nem o acaso rege tudo, como sonharam Pitágoras e outros, mas é criado e governado pela providência de Deus, que o criou. Com isso se esclarece o conjunto do tempo e os anos, para aqueles que querem obedecer à verdade. Entretanto, para que não pareça que chegamos apenas até Ciro e descuidamos das épocas posteriores, porque não podíamos completar a nossa demonstração, com a ajuda de Deus procurarei ordenar também, no que for possível, a cronologia das épocas seguintes.

Capítulo XXVII - História contemporânea
Ciro reinou trinta e oito anos e foi morto por Tomíris na Massagétia, durante a sexagésima segunda Olimpíada. A partir dai, os romanos se engrandeceram, com a força de Deus. Roma tinha sido fundada por Rômulo, que se conta ter sido filho de Marte e Ilia, na sétima Olimpíada, dezessete dias antes das calendas de maio, quando então o ano era contado em dez meses. Morto Ciro, como dissemos, na sexagésima segunda Olimpíada, o tempo desde a fundação de Roma corresponde a duzentos e vinte anos, quando Tarqüínio, o Soberbo, comandava os romanos. Este foi o primeiro que desterrou alguns romanos, corrompeu os jovens e deu direitos de cidadania a eunucos; ele chegou até a violar virgens para depois dá-las em casamento. Por isso, ele foi chamado em latim de "Soberbo", que significa "Arrogante". Foi o primeiro a decretar que aqueles que o saudassem fossem saudados por outro. Reinou vinte e cinco anos. Depois dele, assumiram o poder cônsules anuais, tribunos e edis durante quatrocentos e cinqüenta e três anos, cujos nomes são muitos e seria supérfluo enumerá-los. Quem quiser saber, os encontrará nas listas feitas por Crísero, o nomenclador, que foi liberto de M. Aurélio Vero. Ele anotou tudo detalhadamente, nomes e datas, desde a fundação de Roma até a morte do seu patrono, o imperador Vero. Portanto, durante quatrocentos e cinqüenta e três anos, magistrados anuais governaram os romanos, como já dissemos. Depois vieram os chamados imperadores: o primeiro, Caio Júlio, que reinou três anos, quatro meses e seis dias; depois Augusto, cinquenta e seis anos, quatro meses e um dia; Tibério, vinte e dois anos; outro Caio, três anos, oito meses e sete dias; Cláudio, treze anos, oito meses e vinte e quatro dias; Nero, treze anos, seis meses e vinte e oito dias; Galba, sete meses e sete dias; Otão, três meses e cinco dias; Vitélio, seis meses e vinte e dois dias; Domiciano, quinze anos, dez meses e vinte e oito dias; Nerva, um ano, quatro meses e dez dias; Trajano, dezenove anos, seis meses e dezesseis dias; Adriano, vinte anos, dez meses e vinte e oito dias; Antonino, vinte e dois anos, sete meses e seis dias; Vero, dezenove anos e dez dias. Assim, os anos dos Césares até a morte do imperador Vero são duzentos e vinte e cinco. Desde a morte de Ciro e do reinado em Roma de Tarquínio, o Soberbo, até a morte do imperador Vero, do qual falamos antes, o total de anos é de setecentos e quarenta e quatro.

Capítulo XXVIII - Recapitulação
Resumindo então a cronologia desde a criação do mundo, temos: da criação do mundo até o dilúvio, dois mil, duzentos e quarenta e dois anos; do dilúvio ao primeiro filho de Abraão, nosso antepassado, mil, trinta e seis anos; de Isaac, filho de Abraão, até a estada do povo com Moisés no deserto, seiscentos e sessenta anos; da morte de Moisés e do comando de Josué, filho de Nave, até a morte de Davi, nosso antepassado, quatrocentos e noventa e oito anos; da morte de Davi e do reinado de Salomão até a estada do povo na Babilônia, quinhentos e dezoito anos, seis meses e dez dias; do reinado de Ciro até a morte do imperador Aurélio Vero, setecentos e quarenta e um anos. O total de anos, sem contar meses e dias, desde a criação do mundo, é de cinco mil, seiscentos e noventa e cinco anos.

Capítulo XXIX - Conclusão
Tendo reunido o que dissemos sobre a cronologia e tudo o resto, é fácil ver a antiguidade dos textos proféticos e a divindade da nossa doutrina. Esta não é recente, assim como a nossa religião, como pensam alguns, fábula e mentira, ao contrário, mais antiga e mais verdadeira do que a deles. Com efeito, Talo menciona Bel, rei dos assírios, e o Titã Crono, dizendo que Bel lutou com os Titãs contra Zeus e os chamados deuses; aí afirma que Gigos, vencido, fugiu para Tartessos, terra que então se chamava Acté e agora se chama Ática, da qual Gigos era então rei. Não creio ser necessário contar-te de quem as outras terras e cidades receberam seus nomes, pois sobretudo tu conheces suas histórias. É coisa evidente, portanto, que Moisés é mais antigo do que todos os historiadores (e não somente ele, mas a maior parte dos profetas que lhe sucederam), e mais do que Bel e Crono e a guerra de Tróia. De fato, segundo a história de Talo, Bel é anterior à guerra de Tróia em trezentos e vinte e dois anos, e acima expusemos como Moisés é anterior à tomada de Tróia em novecentos ou mil anos. Como Crono e Bel foram contemporâneos, a maior parte não sabe quem é Crono e quem é Bel. Uns culturam Crono e o chamam de Bel ou Bal, sem saber quem é Crono e quem é Bel. Entre os romanos o chamam de Saturno, e também estes não sabem quem dos dois é, se Crono ou Bel. Quanto ao início das Olimpíadas, uns dizem que adquiriam caráter religioso a partir de Ifito; conforme outros, a partir de Limo, que também era chamado de Ilio. Acima expusemos a sucessão dos anos e das Olimpíadas. Por fim, segundo as nossas possibilidades, creio que eu disse exatamente o que se refere à antiguidade de nossas coisas e o número completo dos tempos. Se algum período nos escapou, terá sido, por exemplo, uns cinqüenta, cem ou até duzentos anos; não, porém, dez mil ou mil anos, como disseram Platão, Apolônio e outros que escreveram de forma mentirosa. Talvez também nós não saibamos exatamente o número de todos os anos, porque não se assinalam nas sagradas Escrituras os meses e dias supérfluos. Além disso, está de acordo com o que dissemos sobre essas épocas Beroso, filósofo caldeu, que foi aquele que deu a conhecer aos gregos a literatura caldéia e disse algumas coisas concordes com Moisés, tanto sobre o dilúvio como sobre muitos outros acontecimentos. Em parte, ele está de acordo também com Jeremias e Daniel; por exemplo, no que aconteceu aos judeus sob o rei da Babilônia, que ele chama de Nabopolassar e os hebreus de Nabucodonosor. Ele também menciona a destruição do templo de Jerusalém pelo rei dos caldeus e como, no segundo ano do reinado de Ciro, foram postos os alicerces do novo templo, que foi terminado no segundo ano de Dano.

Capítulo XXX - As verdadeiras razões do incrédulo / Exortação final
Os gregos, porém, não mencionam as histórias verdadeiras. Primeiro, porque só recentemente tiveram conhecimento das letras, coisa que eles mesmos confessam, uns dizendo que foram inventadas pelos caldeus, outros pelos egípcios, outros pelos fenícios; segundo, porque cometeram e continuam cometendo um erro ao não se lembrarem de Deus em seus escritos, mas só assuntos vãos e inúteis. Vê-se como colocam todo seu afã em citar Homero, Hesíodo e outros poetas; sobre a glória do Deus incorruptível e único, porém, não só se esquecem dele, como também o blasfemam. Mais ainda: perseguiram e até hoje continuam perseguindo seus adoradores. Em troca, oferecem prêmios e honras para os que o insultam melodiosamente, mas aos que se esforçam pela virtude e vivem vida santa, eles apedrejam uns, matam outros, e até hoje os submetem a tormentos cruéis. Por isso, necessariamente perderam a sabedoria de Deus e não encontraram a verdade. Portanto, se te agrada, lê cuidadosamente tudo isso, para que encontres aqui um resumo e um penhor da verdade.
* * *
Fonte: Veritatis Splendor (http://www.veritatis.com.br)
Tradução: Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin


SãoTeófilo de Antioquia - Primeiro Livro a Autólico

São Teófilo de Antioquia - Segundo Livro a Autólico

Nenhum comentário:

Postar um comentário