Seja por sempre e em todas partes conhecido, adorado, bendito, amado, servido e glorificado o diviníssimo Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

"Roma perderá a Fé e se tornará a sede do Anticristo"

Nossa Senhora em La Salette

Attende Domine, et miserere, quia peccavimus tibi.

Pax Domini sit semper tecum

Item 4º do Juramento Anti-modernista São PIO X: "Eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi trazida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito que foi confiado à esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver indefinidamente" - JURAMENTO ANTI-MODERNISTA

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Eu conservo a MISSA TRADICIONAL, aquela que foi codificada, não fabricada, por São Pio V no século XVI, conforme um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ORDO MISSAE de Paulo VI”. - Declaração do Pe. Camel.

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Ao negar a celebração da Missa Tradicional ou ao obstruir e a discriminar, comportam-se como um administrador infiel e caprichoso que, contrariamente às instruções do pai da casa - tem a despensa trancada ou como uma madrasta má que dá às crianças uma dose deficiente. É possível que esses clérigos tenham medo do grande poder da verdade que irradia da celebração da Missa Tradicional. Pode comparar-se a Missa Tradicional a um leão: soltem-no e ele defender-se-á sozinho”. - D. Athanasius Schneider

"Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa (desde que não se falte à verdade), sendo obra de caridade gritar: Eis o lobo!, quando está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde seja encontrado".- São Francisco de Sales

“E eu lhes digo que o protestantismo não é cristianismo puro, nem cristianismo de espécie alguma; é pseudocristianismo, um cristianismo falso. Nem sequer tem os protestantes direito de se chamarem cristãos”. - Padre Amando Adriano Lochu

"MALDITOS os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável SALVADOR seja posto lado a lado com Buda e Maomé em não sei que panteão de falsos deuses". - Padre Emmanuel

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Demonstração da pregação apóstolica Santo Ireneu, Bispo de Lião


Demonstração da pregação apóstolica
Santo Ireneu, Bispo de Lião (115 - 202).
Tradução de Lourenço Costa

Texto
Tradução de Carlos Martins Nabeto
PRÓLOGO (caps. 1-3)
Ireneu escreve a seu amigo Marciano e lhe promete um compêndio da fé cristã
1. Conheço, querido Marciano, teu empenho em seguir o caminho da piedade, a única via que conduz o homem à vida eterna; alegro-me com isso e peço por ti, para que, conservando pura a fé, fiques grato a Deus, teu Criador. Oxalá pudéssemos estar sempre juntos para nos ajudar mutuamente e cuidar das preocupações da vida terrena mediante a troca contínua de questões proveitosas! Visto que atualmente estamos fisicamente separados um do outro, decidi, dentro das minhas possibilidades, conversar contigo por escrito e te expor brevemente a pregação da verdade para fortalecer a tua fé. O que te envio é uma espécie de recordação sobre os pontos fundamentais, de tal modo que, em poucas páginas, possas encontrar abundante material, reunindo concisamente as linhas fundamentais do corpo de verdade e, com este compêndio, tenhas à mão as provas das realidades divinas. Penso que te será útil não apenas para a tua salvação, mas também para rebateres aos que defendem falsas opiniões e, a quem quiser conhecer, possas expor com segurança o nosso ensino em sua integridade e pureza. Na realidade, para aqueles que enxergam, não há mais que um único caminho ascendente, iluminado pela luz celeste; porém, para aqueles que não enxergam, os caminhos são muitos, sem iluminação e em declive. O primeiro conduz ao reino dos céus e une o homem a Deus; os outros levam à morte e o afastam de Deus. Portanto, para ti e para os que desejam ardentemente Sua salvação, é necessário que caminhem na fé, sem se desviar, com coragem e determinação, para evitar que, por falta de tenacidade e perseverança, se entreguem aos prazeres materiais ou que, errando o caminho, se afastem da reta direção.

O conhecimento da verdade e as boas obras
2. E como o homem é um ser vivente composto de alma e corpo, é necessário e conveniente, assim, que exista em virtude de tais dois elementos. E visto que de um e de outro, dos dois, emanam as quedas, a pureza do corpo está em abster-se e evitar toda coisa inverídica e toda ação injusta, e a pureza da alma está em conservar intacta a fé em Deus, sem acrescentar ou retirar nada dela. Porque a piedade se empalidece e perde seu calor quando se contamina com a impureza do corpo; rompe-se, mancha-se e desintegra-se quando o erro entra na alma. Manter-se-á em sua beleza e em sua justa proporção quando a verdade habitar constantemente na alma e a santidade no corpo. Porém, para que serve conhecer a verdade da Palavra se se profana o corpo e se realizam ações deploráveis? De que serve a santidade do corpo se a verdade não habita na alma? Ambas, pois, se alegram de estarem juntas; estão aliadas e lutam constantemente para levar o homem à presença de Deus. Por isso, diz o Espírito Santo por meio de Davi: “Ditoso o homem que não caminha no conselho dos ímpios” (Sal. 1,1), isto é, no conselho dos povos que não conhecem a Deus. De fato, ímpios são aqueles que não adoram Aquele que é, por natureza, Deus. Assim, o Verbo diz a Moisés: “Eu sou aquele que sou” (Ex. 3,14). Portanto, os que não adoram Aquele que verdadeiramente é, são ímpios. “Que tampouco se assenta na cátedra dos cínicos” (Sal. 1,1). Cínicos são os que, com doutrinas falsas e perversas, não apenas corrompem-se a si mesmos, como também aos demais. A cátedra, de fato, é o símbolo da escola. Assim são os hereges: sentam-se na cátedra dos cínicos e corrompem aos que bebem do veneno das suas doutrinas.

A regra da fé: fundamento da verdade e da salvação
3. Assim, pois, por temer coisa semelhante, devemos manter inalterada a regra da fé e cumprir os mandamentos de Deus, crendo n’Ele, temendo-O como Senhor e amando-O como Pai. Portanto, um comportamento deste estilo é uma conquista da fé, pois, como diz Isaías: “Se não creres, não compreendereis” (Is. 7,9). A fé nos é concedida pela verdade, pois a fé se fundamenta na verdade. De fato, cremos o que realmente é e como é; e crendo no que realmente é e como sempre foi, mantemos firme nossa adesão. Pois bem: posto que a fé sustenta nossa salvação, é necessário prestar-lhe muita atenção para obter uma inteligência autêntica da realidade. A fé é que nos faz procurar tudo isso, como nos transmitiu os Presbíteros, discípulos dos apóstolos. Em primeiro lugar, a fé nos convida insistentemente a relembrar que recebemos o batismo para o perdão dos pecados em nome de Deus Pai e em nome de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado, e [em nome] do Espírito Santo de Deus; que o batismo é o selo da vida eterna, o novo nascimento de Deus, de modo tal que não somos mais filhos de homens mortais, mas do Deus eterno e indefectível; que o Eterno e Indefectível é Deus, acima de todas as criaturas, e que cada coisa, seja qual for a sua espécie, está submetida a Ele; e tudo o que foi a Ele submetido foi por Ele criado. Deus, portanto, não exerce seu poder e soberania sobre o que pertence aos outros, mas sobre o que lhe é próprio. E tudo é de Deus. Com efeito, Deus é onipotente e tudo provém d’Ele.

A CATEQUESE APOSTÓLICA (caps. 4-41)

Deus Criador de todas as coisas
4. Porque é necessário que as coisas criadas tenham por princípio algum grande motivo e o princípio de tudo é Deus, Ele não tem origem em outra coisa, antes, pelo contrário, tudo foi criado por Ele. É, pois, necessário crer, primeiramente, que há um Deus, o Pai, o qual criou e organizou para Si o conjunto dos seres, fez existir o que não existia e conteve no conjunto dos seres o Único incontível. Pois bem: em tal conjunto encontra-se igualmente este nosso mundo e, no mundo, o homem. Logo, pois, este mundo foi criado por Deus.

Deus cria por meio do Verbo e do Espírito
5. Eis aqui a demonstração [desta doutrina]: que há um só Deus, Pai, não criado, invisível, criador do universo; nem acima d’Ele, nem abaixo d’Ele há outro Deus; que Deus é racional e, por isso, todos os seres foram criados por meio do Verbo; e Deus é Espírito e, com o Espírito, dispôs-Lhe tudo, segundo diz o profeta: “Pela palavra do Senhor, foram estabelecidos os céus, e por obra de seu Espírito, todas as suas potências” (Sal. 32,6).
Pois bem, já que o Verbo estabelece, isto é, cria e outorga a consistência ao que é, ali onde o Espírito põe em ordem e em forma a múltipla variedade de potências, justa e convenientemente o Verbo é denominado Filho, e o Espírito, Sabedoria de Deus. Com este propósito, o apóstolo Paulo diz: “Um só Deus Pai, que está acima de tudo, com tudo e em todos nós” (Ef. 4,6). Porque sobre todas as coisas está o Pai, porém, com tudo está o Verbo, visto que, por seu intermédio, o Pai criou o universo; e em todos nós está o Espírito que clama “Abbá” (Pai) e modelou o homem à semelhança de Deus. Assim, pois, o Espírito mostra o Verbo; por sua vez, os profetas anunciaram o Filho de Deus; mas o Verbo leva consigo o Espírito e, assim, é Ele mesmo que comunica aos profetas a mensagem e eleva o homem ao Pai.

Os três artigos da fé: Pai, Filho e Espírito Santo
6. Eis aqui a regra da nossa fé, o fundamento do edifício e a base de nossa conduta: Deus Pai, não criado, ilimitado, invisível, único Deus, criador do universo. Este é o primeiro e principal artigo. O segundo é este: o Verbo de Deus, Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor, que apareceu aos profetas segundo o desígnio de sua profecia e segundo a economia disposta pelo Pai; por meio d’Ele foi criado o universo. Ademais, no fim dos tempos, para recapitular todas as coisas, fez-se homem entre os homens, visível e tangível, para destruir a morte, para manifestar a vida e restabelecer a comunhão entre Deus e o homem. E como terceiro artigo: o Espírito Santo, por cujo poder os profetas profetizaram, os Padres foram instruídos no que concerne a Deus, os justos foram guiados pelo caminho da justiça e que, no fim dos tempos, foi difundido de um modo novo sobre a humanidade, por toda terra, renovando o homem para Deus.

O batismo: novo nascimento em Deus Pai, Filho e Espírito Santo
7. Por isso, o batismo, nosso novo nascimento, tem lugar por estes três artigos e nos concede renascer de Deus Pai, por meio de seu Filho no Espírito Santo. Porque os portadores do Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho, que é quem os acolhe e os apresenta ao Pai, e o Pai lhes dá a incorruptibilidade. Sem o Espírito Santo é, pois, impossível ver o Verbo de Deus; e sem o Filho, ninguém pode se aproximar do Pai, porque o Filho é o conhecimento do Pai e o conhecimento do Filho se obtém pelo Espírito Santo. Porém, o Filho, segundo a bondade do Pai, dispensa como ministro o Espírito Santo para quem Ele quer e como o Pai quer.

Deus Pai bondoso e justo
8. E se o Pai é denominado, pelo Espírito Santo, Altíssimo, Onipotente e Senhor das potências, é para que possamos conhecer a Deus, ou seja, o criador do céu e da terra e de todo universo, criador dos anjos e dos homens, e Senhor de todos, por meio do qual tudo existe e permanece vivo, misericordioso, compassivo, terníssimo, bom, justo, Deus de todos, dos judeus, dos gentios e dos crentes; porém, dos crentes, é Deus Pai, pois no fim dos tempos permitiu Ele o testamento da adoção filial. Mesmo assim, para os judeus, é Senhor e legislador, porque quando aqueles homens, nos tempos médios, esqueceram-se de Deus, afastando-se e rebelando-se contra Ele, os reconduziu à obediência mediante a Lei pela qual souberam que tinham um Senhor, que é autor, criador e que confere o sopro da vida, a quem devemos cultuar dia e noite. E para os gentios é criador, demiurgo e onipotente. Para todos, sem exceção, é quem dá o alimento e manjar; rei e juiz, porque ninguém escapará do seu juízo, nem judeu, nem gentio, nem nenhum crente pecador, muito menos um anjo. Aqueles que presentemente se negam a crer na sua bondade, experimentam no juízo o seu poder, como diz o santo apóstolo: “Não reconhecendo que a bondade de Deus te traz à emenda, antes pelo contrário, com a dureza e a impenitência do teu coração, armazenas a ira para o Dia da Ira, quando se revelará o justo juízo de Deus, que pagará a cada um conforme suas obras” (Rom. 2,4-6). Este é Aquele que na Lei é chamado de “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, Deus dos vivos” (Ex. 3,6). A transcendência e magnitude deste Deus são indescritíveis.

Os sete céus, os dons do Espírito e o culto angélico
9. Este mundo é rodeado por sete céus, nos quais habitam inúmeras potências, anjos e arcanjos, que asseguram um culto a Deus todo-poderoso e criador do universo. Não porque tenha necessidade deles, mas para que não estejam, ao menos, sem fazer nada, como inúteis e malditos. Por isso, é múltipla a presença interior do Espírito de Deus e o profeta Isaías a enumera em sete formas de ministério, que descansaram no Filho de Deus, a saber, o Verbo, em sua vinda humana. De fato, disse: “Sobre Ele pousará o Espírito de Deus, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, [Espírito de ciência] e piedade; lhe conquistará o Espírito do temor de Deus” (Is. 11,2-3). O primeiro céu, pois, a partir do alto, que contém os restantes, é a sabedoria; o segundo é a inteligência; o terceiro é o conselho; o quarto, em linha descendente, é a fortaleza; o quinto é a ciência; o sexto é a piedade; o sétimo, que corresponde ao nosso firmamento, está repleto de temor deste Espírito que ilumina os céus. Daí Moisés adotar o modelo do candelabro de sete braços, que arde ininterruptamente no Santuário. De fato, organizou o culto segundo este esquema celeste, com o que lhe havia apontado o Verbo: “Te ajustarás ao modelo que te foi mostrado na montanha” (Ex. 25,40).

A glorificação do Pai pelo Filho e pelo Espírito Santo
10. Este Deus, isto é, o Pai, vem, pois, glorificado por seu Verbo, que é seu Filho para sempre, e pelo Espírito Santo, que é a Sabedoria do Pai de todos. E suas potências, a do Logos e da Sabedoria, chamadas também Querubins e Serafins, glorificam a Deus com voz incessante; e qualquer outra criatura que com Eles está nos céus dá glória a Deus, Pai de todos. Ele, com a Palavra, conferiu a existência ao universo inteiro; e neste universo há também anjos; e a este universo inteiro deu leis, ordenando que cada qual esteja e permaneça em seu seio, sem sair dos limites decretados por Deus, cumprindo cada um o trabalho que lhe foi assinalado.

Deus modelou o homem com suas mãos
11. Deus modelou o homem com suas próprias mãos, tomando o pó mais puro e mais fino da terra e mesclando-o, em medida justa, com sua virtude. Deu àquele plasma sua própria fisionomia, de modo que o homem, ainda que visível, se tornasse imagem de Deus. Porque o homem foi posto na terra modelado conforme a imagem de Deus. E a fim de que pudesse viver, Deus soprou em seu rosto um hálito de vida, de modo que tanto no sopro como na carne plasmada fosse o homem semelhante a Deus. Foi criado por Deus livre e senhor de si, destinado para ser rei de todos os seres do cosmos. Este mundo criado, preparado por Deus antes de formar o homem, foi entregue ao homem como território próprio, com todos os bens que continha.
Neste lugar trabalhavam, cada um segundo suas próprias funções, os servos daquele Deus que criou todas as coisas; e ali mandava o regente e cabeça constituído, chefe de seus co-servos; os servos eram anjos e o regente e cabeça era um arcanjo.

O paraíso: lugar de delícias
12. Tendo, pois, constituído o homem dono da terra e de toda coisa existente sobre ela, secretamente o constituiu também dono daqueles que nela tinham ofício de servos. Mesmo assim, estes, isto é, os anjos, encontravam-se na plenitude de suas possibilidades, ainda que o dono, isto é, o homem, fosse ainda pequeno, como criança, e devesse crescer para chegar à maturidade. E a fim de que se alimentasse e desenvolvesse com gozo e alegria, foi-lhe preparado um lugar melhor neste mundo, superior a ele pelo ar, beleza, luz, alimento, plantas, frutos, águas e todas as demais coisas necessárias para a vida. E este lugar teve por nome “Jardim” . O Jardim era tão belo e agradável que o Verbo de Deus freqüentemente apresentava-se nele; passeava e se entretinha com o homem, prefigurando o que haveria de se suceder no futuro, isto é, que o Verbo de Deus se faria concidadão do homem, conversaria e habitaria com todos os homens, ensinando-lhes a justiça. Porém, o homem era, todavia, menino e não tinha pleno uso da razão, de forma que foi fácil ao Sedutor enganá-lo.

A criação de Eva
13. Então Deus fez comparecer perante a presença de Adão, que passeava pelo Jardim, todos os animais e lhe ordenou que para apontasse nomes para cada um; e o termo que denominou Adão como ser vivente passou a ser seu nome. Decidiu, assim mesmo, criar uma auxiliar para o homem, dizendo: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliar que lhe corresponda” (Gen. 2,18). Entre todos os viventes não foi encontrado igual auxiliar, agradável e similar a Adão. Deus mesmo inspirou, então, um êxtase a Adão e o fez adormecer. Como o sonho não existia no Jardim, foi inspirado sobre Adão, por vontade de Deus, para fazer uma obra a partir de outra obra. Tomou, então, uma costela de Adão e encheu de carne o vazio criado; e com a costela extraída, fez a mulher e a apresentou para Adão. “Este, ao vê-la, exclamou: ‘Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Seu nome será mulher, porque foi tirada de seu homem’” (Gen. 2,23).

Adão e Eva em perfeita harmonia
14. E Adão e Eva - pois assim se chamava a mulher - estavam nus e não sentiam vergonha, porque sua mentalidade era inocente e infantil, e não brotavam neles imaginações e pensamentos como os que a concupiscência lança na alma e a paixão que atiça ao mal. De fato, viviam em estado de integridade, conservando sua própria natureza, porque assim lhes foi inspirado pelo sopro de vida quando foram plasmados. Pois bem: ainda que consistente e perseverante aquele sopro, com sua ordem e vigor, não entendiam e concebiam coisas abjetas; por isso, não sentiam vergonha ao beijarem-se e abraçarem-se com a inocência mais infantil.

O mandamento de Deus
15. Porém, para que o homem não tivesse pensamentos de soberba e se orgulhasse, como se não tivesse senhor em razão da autoridade que lhe havia sido conferida e da liberdade de acesso a Deus; para que não faltasse e, por complacência, concebesse pensamentos de orgulho contra Deus, foi-lhe dada, por Deus, uma lei a fim de que reconhecesse que tinha para si o Senhor como Senhor de tudo. E Deus lhe impôs algumas regras, de sorte que, se observasse o mandamento de Deus, permaneceria sempre como era, isto é, imortal. Porém, se não o observasse, se faria mortal, destinado a se dissolver na terra de onde fora plasmado. E este era o mandamento: “De toda árvore que está no interior do Jardim, come e te alimenta. Mas da árvore de onde procede a ciência do bem e do mal, dessa apenas não comerás, pois no dia em que comeres dela, morrerás” (Gen. 2,16-17).

Satanás provoca o pecado, a ruína do homem
16. O homem não cumpriu a ordem, mas desobedeceu a Deus. O anjo o seduziu, zeloso e invejoso pelos numerosos dons que Deus havia concedido ao homem. E ao persuadir a desobediência à ordem divina, [o anjo] provocou sua própria ruína, ao mesmo tempo que tornava o homem pecador. O anjo, convertido assim em chefe e guia do pecado, foi castigado por ofensa a Deus e conseguiu, ao mesmo tempo, que o homem fosse expulso do Jardim. E porque com seu intento se rebelou e apostatou de Deus, foi chamado “Satanás”, em hebraico, ou seja, apóstata, mas também é chamado “diabo”. Deus amaldiçoou também a serpente, por servir de disfarce ao diabo, maldição esta que alcançou o próprio animal e o anjo escondido nele, Satanás. Quanto ao homem, o expulsou da sua presença; transferindo-o, fez com que habitasse no caminho que conduz ao Jardim, uma vez que o Jardim não comportava o pecador.
O drama dos filhos de Adão: Caim e Abel
17. Expulsos do Jardim, Adão e sua mulher, Eva, padeceram muitas misérias e viveram neste mundo cheios de tristeza, fadigas e lamentos. Porque o homem trabalhava a terra sob os raios do sol e a terra produzia espinhos e abrolhos, castigo do pecado. Então se cumpriu a palavra da Escritura: “Adão se uniu à sua mulher; ela concebeu, deu à luz a Caim e, depois, deu à luz a Abel”. Mas o anjo rebelde, o mesmo que impulsionou o homem à desobediência, que o tornou pecador e causou sua expulsão do Jardim, não contente com o que fizera anteriormente, planejou um novo dano, desta vez sobre os dois irmãos, porque enchendo Caim de seu próprio espírito, o fez fratricida. Assim, morreu Abel, assassinado por seu irmão, como um sinal do futuro, quando alguns seriam perseguidos, atormentados e mortos, e seriam os injustos os que viriam a matar e perseguir os justos. Por isso, Deus encoleralizou-se e amaldiçoou Caim e, desde então, todos os descendentes em linha de sua sucessão foram semelhantes ao seu progenitor. Deus, depois, fez com que Adão tivesse outro filho em substituição de Abel, assassinado.

Os Gigantes. O aumento da maldade e a diminuição da justiça
18. A maldade, estendendo-se continuamente, alcançou e inundou a raça humana; somente um pouco da semente de justiça restava nela. Porque, ademais, sobre a terra ocorriam uniões ilegítimas: os anjos fornicaram com as filhas dos homens, que deram à luz filhos que, por sua enorme estatura, foram chamados gigantes. Os anjos, então, deram às suas esposas, como presente, ensinamentos malignos. Ensinaram elas a produzir extratos de flores e plantas, tintas e pinturas, jóias e cosméticos, os zelos e as paixões, a sedução e o atrevimento, os sortilégios da magia e toda classe de adivinhação e idolatria, odiados por Deus. E uma vez desencadeadas todas essas coisas, o mal se expandiu até transbordar e a justiça diminuiu quase a ponto de desaparecer.

O dilúvio como juízo de Deus
19. Finalmente, quando veio sobre o mundo o justo juízo de Deus, com o dilúvio na décima geração contada a partir do primeiro homem, apenas Noé foi encontrado justo e, graças à sua própria justiça, foi salvo com sua mulher, seus três filhos e mulheres, juntamente com os animais que Deus ordenou a Noé introduzir em sua arca. Enquanto a destruição ocorria sobre toda a terra, atingindo homens e seres vivos, salvaram-se apenas os que estavam na arca. Os três filhos de Noé eram Sem, Cam e Jafet, e sua estirpe voltou a multiplicar-se novamente. Esta é a origem de todos os que nasceram após o dilúvio.

As bênçãos e as maldições na família de Noé
20. Entre os filhos de Noé, um caiu em maldição, enquanto que os outros dois receberam a benção por suas obras. Eis que o mais jovem entre eles, chamado Cam, por ter ironizado seu pai e ser condenado pelo pecado da impiedade por causa do ultraje e ignomínia para com seu pai, atraiu uma maldição que transmitiu para toda a sua descendência. Com efeito, toda a raça que o seguiu tornou-se maldita e neste pecado cresceu e se multiplicou. Por outro lado, Sem e Jafet, seus irmãos, ante sua piedade para com o pai, obtiveram uma bênção. Eis aqui os termos da maldição lançada por Noé sobre Cam: “Maldito seja este jovem, Cam. Seja ele o servo de seus irmãos” (Gen. 9,25). Quando atingiu a idade adulta, teve sobre a terra uma posterioridade numerosa como uma floresta, desenvolvendo-se por catorze gerações de descendentes, até que, por ter sido condenada, foi cessada por Deus. De fato, os cananeus, os jeteus, os fereceus, os jeveus, os amorreus, os jebuseus, os guergeseus, os sodomitas, os árabes, os habitantes da Fenícia, todos os egípcios e os líbios descendem de Cam e caíram sob a maldição, a qual se estendeu amplamente sobre os ímpios.

O triunfo das bênçãos
21. Do mesmo modo como a maldição seguiu seu caminho, a bênção continuou na posterioridade dos que foram abençoados, cada um segundo sua ordem. Em primeiro lugar foi abençoado Sem, com estas palavras: “Bendito o Senhor Deus de Sem. Seja Cam teu servo” (Gen. 9,26). Desta bênção resultou que Deus, Senhor do universo, chegou a ser para Sem objeto privilegiado de sua piedade; a bênção se desenvolveu até alcançar Abraão, que, da posterioridade de Sem, chega até a décima-quarta geração segundo a ordem genealógica descendente. E é esta a razão pela qual o Pai, Deus do universo, se compraz em ser chamado “Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó″ (Ex. 3,6; Mat. 22,32; Mc. 12,26; Luc. 20,37), porque a bênção de Sem chegou a Abraão. Já a bênção de Jafet foi formulada do seguinte modo: “Que Deus multiplique Jafet e habite na casa de Sem; e Cam seja teu servo” (Gen. 9,27). Esta bênção floresceu ao final deste período, quando o Senhor se manifestou às nações por seu chamamento - pois Deus multiplicou seu chamamento para elas - e “toda terra alcançou sua pregação, e suas palavras chegaram até os limites do orbe” (Sal. 18,5). Multiplicar significa, pois, o chamamento das nações, a saber, a Igreja. E habitar na casa de Sem indica a herança dos patriarcas, por ter Jesus Cristo recebido o direito de primogenitura. Deste modo, segundo a ordem da bênção, cada um recebeu por meio da descendência o fruto da bênção.

A Aliança universal
22. Depois do dilúvio, Deus estabeleceu um pacto de aliança com o mundo inteiro, em particular com todos os animais e com os homens, em virtude do qual não destruiria novamente com outro dilúvio o que refloresce sobre a terra, oferecendo um sinal: “Quando o céu se cobrir de nuvens, aparecerá nas nuvens um arco e eu me recordarei da aliança e não voltarei a destruir com água tudo o que existe sobre a terra” (Gen. 9,14-15). E alterou a alimentação dos homens, permitindo-lhes comer carne, pois desde a primeira criatura, Adão, até o dilúvio, os homens alimentavam-se apenas de grãos e frutos de árvores, já que o alimento da carne não lhes era permitido. E como os três filhos de Noé eram o princípio da raça humana, Deus os abençoou para que se multiplicassem e crescessem, dizendo: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e dominai-a. Vos temerão e respeitarão todos os animais e todas as aves do céu. Vos servirão de alimento, da mesma forma como os vegetais. Porém, não comereis carne com sangue, que é sua vida, porque pedirei contas de vosso sangue a qualquer animal e também ao homem. Se alguém derramar o sangue de um homem, outro derramará o seu, porque Deus fez o homem segundo sua imagem” (Gen. 9,1-6). E a imagem de Deus é o Filho, sob cuja imagem foi feito o homem. Eis aqui porque, nos últimos tempos, se manifestou, para dar a entender que a imagem era semelhante a Si. Depois desta aliança, o gênero humano se multiplicou e se propagou a partir da posterioridade dos três filhos de Noé. “E havia, então, uma só boca sobre a terra”, isto é, uma só língua.

A torre de Babel
23. Levantadas as tendas, partiram do Oriente e, em sua peregrinação, chegaram até a extensa planície de Senaar, onde decidiram edificar uma torre. Buscavam com ela chegar até o céu, pretendendo, assim mesmo, deixar sua obra como memorial para as futuras gerações. Construíram o edifício com ladrilhos cozidos e betume; crescia sua audácia e temeridade, e, graças à sua união no mesmo objetivo e uso da mesma língua, o que pretendiam se concretizava. Porém, para que não fosse adiante sua obra, Deus dividiu suas línguas com o objetivo de que não se entendessem. Desta forma, se dispersaram e ocuparam a terra em grupos distintos, segundo suas línguas. Eis aqui as diferenças entre os povos e a diversidade das línguas. De fato, três raças humanas habitavam sobre a terra. Uma delas estava sob o peso da maldição, enquanto que as duas outras restantes eram abençoadas. A bênção desceu primeiro sobre Sem, cujos descendentes habitaram o Oriente e ocuparam o país dos caldeus.

A aliança com Abraão
24. Posteriormente, na décima geração após o dilúvio, se encontra Abraão, que busca a Deus, que o corresponde, por pertencer à bênção de seu antepassado [Sem]. Quando, seguindo o ardente desejo de seu coração, peregrinava pelo mundo perguntando-se onde estava Deus e começou a fraquejar, estando a ponto de desistir da busca, Deus teve piedade daquele que somente O buscava no silêncio. E se manifestou a Abraão, dando-se a conhecer por meio do Verbo, como que por um raio de sol. E, a partir do céu, lhe disse: “Sai da tua terra, do teu povo e da casa de teu pai; emigra para o país que te indicarei e fixa ali a tua morada” (Gen. 12,1). Ele confiou na voz celeste e, apesar de ter 70 anos e uma mulher idosa, com ela abandonou a Mesopotâmia e levou consigo Lot, filho de seu finado irmão. Quando chegou à terra que hoje se chama Judéia, habitada então por sete povos descendentes de Cam, Deus lhe apareceu em visão e disse: “A ti e a tua descendência, nas futuras gerações, te darei esta terra como possessão perpétua” (Gen. 12,7; 13,15; 17,8; At. 7,25). E acrescentou que a sua descendência andaria errante por um país estrangeiro, no qual seria maltratada, afligida e escravizada ao longo de 400 anos; porém, aquela, na quarta geração, voltaria à terra prometida a Abraão e Deus condenaria o povo que havia escravizado sua posterioridade. E para que Abraão conhecesse a grandeza e esplendor da sua descendência, Deus o fez sair de noite e lhe dirigiu estas palavras: “Olha para o alto, para o céu, e, se puderes, conta as estrelas do céu. Assim será a tua descendência” (Gen. 15,15). E Deus, vendo a fé e a firme decisão de seu espírito, atestou, dizendo na Escritura por meio do Espírito Santo: “Abraão confiou em Deus e foi reputado justo” (Gen. 15,6) Era incircunciso quando recebeu este atestado; e para que a grandeza da sua fé fosse reconhecida como sinal, deu a circuncisão como “selo da justiça da fé da incircuncisão” (Rom. 4,11). Depois disto, segundo a promessa de Deus, da estéril Sara lhe nasceu um filho, Isaac, que circuncidou conforme o pacto que Deus estipulara com ele. De Isaac nasceu Jacó. Desta maneira, a bênção inicial de Sem chegou até Abraão e de Abraão passou para Isaac e Jacó, graças ao assinalamento da herança feita pelo Espírito. Por isso, Deus é denominado “Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó″ (Ex. 3,6; Mat. 23,32). Jacó, por sua vez, gerou doze filhos, dos quais tomaram nome as doze tribos de Israel.

O mistério da Páscoa
25. Quando a fome afligiu toda a terra e somente o Egito contava com gêneros alimentícios, Jacó emigrou com toda a família para aquele país. O número total de emigrantes ascendia a 75 pessoas e, em 400 anos, chegaram a ser, segundo as predições, 660 mil. Visto que sofriam muitos vexames e opressões em uma cruel escravidão, e gemiam e se lamentavam perante Deus, o Deus de seus pais, Abraão, Isaac e Jacó, [Deus] os tirou do Egito valendo-se de Moisés e Aarão, depois de ter castigado os egípcios com dez pragas, sendo que, na última, mandou um anjo exterminador para matar os primogênitos tanto de homens como de animais. Assim, salvou os filhos de Israel, prefigurando de um modo misterioso a Paixão de Cristo na imolação de um cordeiro imaculado e, com seu sangue, derramado como garantia de imunidade, mandou assinalar as casas dos hebreus. Este mistério recebe o nome de “Páscoa”, manancial de liberdade. Dividido o mar Vermelho, conduziu - com toda espécie de cuidados - os filhos de Israel para o deserto, enquanto que os egípcios, que se lançaram em sua perseguição pelo mar, pereceram todos. Este foi o juízo de Deus contra os que injustamente haviam oprimido a estirpe de Abraão.

O Decálogo entregue a Moisés
26. Moisés, no deserto, recebeu de Deus a lei: o Decálogo, gravado em tábuas de pedra pelo dedo de Deus - o dedo de Deus é o que sai do Pai no Espírito Santo - , os preceitos e os direitos que transmitiu aos filhos de Israel para que observassem. Por ordem de Deus, construiu o tabernáculo do testemunho, construção visível na terra das realidades espirituais e invisíveis do céu, figura da Igreja e representação profética das realidades futuras. Ali colocou os vasos, os altares e a arca na qual depositou as tábuas. Constituiu sacerdotes a Aarão e seus filhos, que descendiam de Levi, conferindo o sacerdócio a toda esta estirpe para exercer o ministério cultual no templo de Deus. E lhes deu a lei levítica que fixa qual a qualidade e conduta que devem adornar os que permanentemente se dedicarão ao serviço do culto no templo de Deus.

A exploração da Terra Prometida e a peregrinação pelo Deserto
27. Quando estavam próximos da Terra Prometida por Deus a Abraão e à sua posterioridade, Moisés escolheu um homem de cada tribo e os enviou em exploração daquela terra, de suas cidades e habitantes. Foi quando Deus lhe revelou o único Nome capaz de salvar os que n’Ele crêem; Moisés mudou o nome de Oséias, filho de Nave, um dos exploradores, para “Jesus” [=Josué]. E Moisés os enviou junto com o poder daquele Nome, persuadido de que os acolheria incólumes quando voltassem, por terem sido conduzidos por aquele Nome; o que, de fato, ocorreu. Concluída sua missão de espionagem e exploração, regressaram trazendo um cacho de uvas; porém, algum dos doze exploradores atemorizou e alarmou o povo ao relatar que as cidades eram imensas e fortificadas, e que os homens, filhos dos Titãs, tinham uma estatura gigantesca e estavam preparados para defender suas terras. Ao receber tais notícias, o povo chorou, fraquejando na fé que tinham n’Aquele Deus que os fortalecia e lhes submetia todo o mundo. Murmuraram contra o país, como se não fosse bom, e se por um país de tal natureza mereciam correr algum risco. Porém, entre os doze, Jesus, filho de Nave, e Caleb, filho de Jefoné, rasgaram suas vestes pelo mal cometido e suplicaram ao povo para que não se deixasse abater e desanimar, porque Deus havia posto o país em suas mães e que o mesmo era excelente. Mas como o povo não se convencia e persistia na incredulidade, Deus o desviou e mudou seu itinerário para que se dispersasse, afligindo-o no deserto. E contando um ano para cada dia que os enviados levaram para explorar e inspecionar o país - isto é, 40 dias - Deus reteve [o povo] durante 40 anos no deserto. Nenhum adulto com pleno uso da razão foi julgado digno de entrar no país em razão da incredulidade, exceto Jesus, filho de Nave, e Caleb, filho de Jefoné, que tinham defendido a herança prometida, e as crianças incapazes de distinguir a direita da esquerda. Pouco a pouco, o povo incrédulo chegou ao final e, paulatinamente, pereceu no deserto, castigado justamente por sua incredulidade. As crianças que cresceram nestes 40 anos cobriram as vagas deixadas pelos mortos.

O Deuteronômio
28. Transcorridos os 40 anos, o povo chegou às proximidades do [rio] Jordão e, reagrupando-se, se alinhou para a batalha de Jericó. Aqui, perante o povo reunido, Moisés invocou a história passada, recordando os grandes feitos de Deus até aquele momento, preparando e dispondo aqueles que tinham crescido no deserto temendo a Deus e observando os mandamentos. Impôs a este [povo] uma nova legislação, acrescentando-a à que já tinha estabelecido anteriormente. Este novo corpo legislativo foi chamado Deuteronômio, isto é, a segunda lei, no qual estão escritas muitas profecias a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo, do povo, da vocação dos gentios e do Reino.

A distribuição da terra
29. Quando Moisés estava a ponto de terminar seus dias, Deus lhe disse: “Sobe ao monte e morre nele, porque não serás tu que entrarás com meu povo na Terra Prometida”. Segundo a palavra do Senhor, morreu Moisés e lhe sucedeu Jesus, filho de Nave. Este atravessou o Jordão, conduziu o povo à terra prometida e, vencidos e aniquilados os sete povos que a habitavam, a distribuiu ao povo. Ali se encontra Jerusalém, onde reinaram Davi e seu filho Salomão, que construiu o templo em nome de Deus segundo a imagem do tabernáculo feito por Moisés como modelo das realidades celestes e espirituais.

O envio dos profetas
30. Para Jerusalém foram enviados, por Deus, por meio do Espírito Santo, os profetas que aconselhavam o povo e o convertia ao Deus onipotente de seus pais. Como colunas da revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, anunciavam que da estirpe de Davi haveria de florescer o Seu Corpo, para que fosse, segundo a carne, filho de Davi - que era filho de Abraão - em razão de uma extensa cadeia de gerações e, segundo o Espírito, Filho de Deus, preexistente com o Pai, gerado antes da fundação do mundo, e aparecido, como homem, ao mundo inteiro nos últimos tempos. Ele é o Verbo de Deus que “recapitula em si todas as coisas, as do céu e as da terra” (Ef. 1,10).

A desobediência e a Encarnação
31. Uniu, pois, o homem com Deus e operou a comunhão entre Deus e o homem, porque não poderíamos, em absoluto, obter participação alguma na incorruptibilidade se não houvesse vindo [o Verbo] habitar entre nós. Pois se a incorruptibilidade tivesse permanecido invisível e oculta, não nos seria de nenhuma utilidade. Fez-se, pois, visível a fim de que integralmente [isto é, em corpo e alma] recebêssemos uma participação desta incorruptibilidade. E porque todos nós estamos envoltos na criação originária de Adão e estamos vinculados à morte por causa da sua desobediência, era conveniente e justo que, por obra da obediência de quem se fez homem por nós, fossem quebradas as [cadeias] da morte. E porque a morte reinava sobre a carne, era preciso que fosse abolida por meio da carne e que o homem fosse libertado de sua opressão. “E o Verbo se fez carne” (Jo. 1,14) para destruir, por meio da carne, o pecado - que, por obra da carne, havia adquirido o poder, o direito de propriedade e domínio - para que não mais existisse entre nós. Por essa razão, nosso Senhor tomou uma corporeidade idêntica à da primeira criatura, para lutar em favor dos primogênitos e vencer em Adão, já que Adão havia nos ferido [de morte].

Adão e Cristo
32. Pois bem: de onde provém a essência da primeira criatura? Da vontade e da Sabedoria de Deus e da terra virgem. “Porque Deus ainda não havia enviado chuva sobre a terra” - diz a Escritura- “antes que o homem fosse plasmado e antes que o homem estivesse ali para cultivá-la” (Gen. 2,5). Desta terra, pois, todavia virgem, Deus tomou o barro e moldou o homem, princípio do gênero humano. Para dar, pois, cumprimento a esse homem, assumiu o Senhor a mesma disposição sua de corporeidade, que nasceu de uma Virgem por vontade e pela Sabedoria de Deus, para manifestar também Ele a identidade de sua corporeidade com a de Adão, e para que se cumprisse o que no princípio havia escrito: “o homem é imagem e semelhança de Deus”.

Eva e Maria
33. E assim como pela obra de uma virgem desobediente foi o homem ferido e, precipitado, morreu, assim também, reanimado o homem por obra de uma Virgem, que obedeceu a Palavra de Deus, recebeu Ele, no homem novamente reavivado, por meio da vida, a Vida. Pois o Senhor veio buscar a ovelha perdida, isto é, o homem que havia se perdido. De onde não fez o Senhor outra carne senão daquela mesma que trouxe origem a Adão e dela conservou a semelhança. Porque era conveniente e justo que Adão fosse recapitulado em Cristo, a fim de que fosse precipitado e submergido o que é mortal na imortalidade, e que Eva fosse recapitulada em Maria, a fim de que uma Virgem, chamada a ser advogada de uma virgem [Eva], descesse e destruísse a desobediência virginal através da obediência virginal. O pecado cometido por causa da árvore foi anulado pela obediência cumprida na árvore, obediência a Deus pela qual o Filho do homem foi elevado na árvore, abolindo a ciência do mal e aportando e presenteando com a ciência do bem. O mal é desobedecer a Deus; o bem, ao contrário, é obedecer [a Ele].

A crucificação cósmica
34. O Verbo, preanunciando por meio do profeta Isaías os acontecimentos futuros - são profetas porque anunciam o que irá acontecer - se expressa assim: “Eu não me rebelo, nem me contradigo. Ofereci minhas costas aos açoites e minha face às bofetadas; não furtarei meu rosto à afronta das cuspidas” (Is. 50,5-6). Assim, pois, pela obediência a que se submeteu até a morte, pendurado no madeiro, destruiu a desobediência antiga cometida na árvore. E como o próprio Verbo onipotente de Deus, em sua condição invisível, está entre nós estendido por todo este universo [visível] e abraça sua largura e sua extensão e sua altura e sua profundidade - pois por intermédio do Verbo de Deus foram dispostas e governadas aqui todas as coisas -, a crucificação [visível] do Filho de Deus teve também lugar nessas [dimensões, antecipadas invisivelmente] na forma da cruz traçada [por Ele] no universo. Ao surgir visivelmente, manifestou a participação deste universo [sensível] em sua crucificação [invisível], a fim de revelar, graças à sua forma visível, sua ação [misteriosa e oculta] sobre o visível, a saber, como é Ele quem ilumina a altura - isto é, o celeste - e contém a profundidade - as regiões subterrâneas - e se estende ao largo, do Oriente até o Ocaso, e governa, como comandante, a região norte e a extensão da Média, e convoca todas as partes e os dispersos para conhecer ao Pai.

O cumprimento da promessa de Abraão
35. Realizou-se, assim, a promessa feita por Deus a Abraão, segundo a qual sua descendência seria como as estrelas do céu. Cristo cumpriu a promessa nascendo de uma Virgem, da estirpe de Abraão, e convertendo em estrelas do mundo os crentes n’Ele e justificando os gentios com Abraão por meio da mesma fé. “Abraão creu no Senhor e foi reputado por justo” (Gen. 15,6). Do mesmo modo, também nós somos justificados em virtude da fé em Deus, porque o justo viverá pela fé. A promessa de Abraão não foi feita pelo cumprimento da lei, mas pela fé. De fato, Abraão foi justificado pela fé: “a lei não foi estabelecida para o justo” (1Tim. 1,9). De igual forma, também nós não somos justificados pela lei, mas sim pela fé, que foi recebida pelo testemunho da lei e dos profetas, e que nos apresenta o Verbo de Deus.

Cristo, nascido da Virgem, da descendência de Davi
36. E cumpriu o que foi prometido a Davi, pois Deus havia se comprometido a suscitar do fruto de seu seio um Rei eterno, cujo reino não teria fim. Este Rei é Cristo, Filho de Deus, feito filho do homem, isto é, nascido, como fruto, da Virgem descendente de Davi; e se a promessa foi do fruto de seu seio - a saber, um rebento da concepção característica da mulher, e não fruto do homem nem dos rins, como é característico do varão - era para anunciar o que era de único e próprio na produção deste fruto de um seio virginal procedente de Davi, que reina na casa de Davi pelos séculos e cujo reino não conhecerá fim.

A Encarnação: destruição da morte e dom da vida
37. Em tais condições, pois, realizava magnificamente nossa salvação, mantinha as promessas feitas aos patriarcas e abolia a antiga desobediência. O Filho de Deus se fez filho de Davi e filho de Abraão. Para cumprir as promessas e recapitulá-las em Si mesmo, com o fim de restituir-nos à vida, o Verbo de Deus se fez carne pelo ministério da Virgem, a fim de desatar a morte e vivificar o homem, porque nós estávamos presos pelo pecado e destinados a nascer através do regime do pecado e a cair sob o império da morte.

Nascimento, morte e ressurreição de Cristo
38. Deus Pai, por sua imensa misericórdia, enviou seu Verbo criador, o qual, vindo para nos salvar, esteve nos mesmos lugares, nas mesmas situações e ambientes onde perdemos a vida. E rompeu as correntes que nos faziam prisioneiros. Apareceu sua luz e fez desaparecer as trevas da prisão; santificou nosso nascimento e aboliu a morte, desatando aqueles mesmos laços que nos prendiam. Manifestou a ressurreição, tornando-se pessoalmente o primogênito dos mortos; sua pessoa levantou o homem caído sobre a terra, ao elevar-se às alturas do céu, estabelecendo-se à direita do Pai, como Deus prometera ao profeta que diz: “Levantarei a tenda de Davi, caída sobre a terra” (Am. 9,11), isto é, o corpo que provinha de Davi. Nosso Senhor Jesus Cristo cumpriu realmente isto, atuando gloriosamente a nossa salvação, a fim de ressuscitarmos verdadeiramente e nos apresentarmos livres diante do Pai. E se alguém não aceita o seu nascimento a partir de uma virgem, como admitirá sua ressurreição entre os mortos? Porque nada tem de milagroso, estranho e inesperado o que ressuscitou dos mortos sem ter antes nascido; nem sequer podemos falar de ressurreição d’Aquele que veio à existência sem nascer; quem não nasce, com efeito, é imortal; e quem não se submete ao nascimento tampouco estará sujeito à morte. Ora, quem não obteve o princípio humano, como poderá obter seu fim?

Cristo, primogênito de toda a criação
39. Sim, pois se não nasceu, tampouco morreu. E se não morreu, tampouco ressuscitou dos mortos. E se não ressuscitou dos mortos, não venceu a Morte, nem destruiu seu império. E se não caiu vencida a Morte, como obterão a vida aqueles que, desde as origens, sucumbiram ao império da Morte? Esses, que negam ao homem a redenção e não crêem que Deus o ressuscitará dos mortos, desprezam também a natividade de nosso Senhor, que por nós se submeteu o Verbo de Deus, fazendo-se carne, a fim de mostrar a ressurreição da carne e ter a primazia sobre todos no céu. Como primogênito da mente do Pai, o Verbo perfeito dirige todas as coisas pessoalmente e legisla sobre a terra; como primogênito da Virgem, é justo, homem santo, piedoso, bom, agradável a Deus, perfeito em tudo e livra do inferno todos os que O seguem; como primogênito dos mortos, é origem e sinal da vida de Deus.

A contínua chamada do Verbo
40. Assim, pois, o Verbo de Deus ostenta o primado sobre todas as coisas, porque é verdadeiro homem e “admirável conselheiro e Deus forte” (Is. 9,6), que chama novamente [com a ressurreição] o homem à comunhão com Deus para que, por intermédio da comunhão com Ele, participemos da incorruptibilidade. O que foi anunciado por Moisés e pelos profetas do Deus altíssimo e onipotente, Pai do universo, origem de tudo, que conversou com Moisés, veio à Judéia, gerado por Deus através do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, era da estirpe de Davi e de Abraão: Jesus, o Ungido de Deus, o que se revelou a Si mesmo, como havia sido predito pelos profetas.

A Igreja comunica o espírito de salvação por meio do Batismo
41. João Batista, o precursor, quando preparava e dispunha o povo para receber o Verbo da vida, fez saber que este era o Cristo, sobre quem o Espírito de Deus havia pousado, unindo com sua carne. Os discípulos e testemunhas de todas as suas boas obras, de seu ensino, de sua Paixão, de sua morte, de sua ressurreição, de sua ascensão ao céu após a ressurreição corporal, isto é, os apóstolos, com o poder do Espírito Santo, foram enviados por Ele para toda terra, convocaram os gentios, ensinaram aos homens o caminho da vida para afastá-los dos ídolos, da fornicação e da avareza, purificaram suas almas e seus corpos com o batismo de água e do Espírito Santo, distribuíram e administraram aos crentes este Espírito que receberam do Senhor. Assim, instituíram e fundaram esta Igreja. Com a fé, a caridade e a esperança, confirmaram a chamada dos gentios que, preanunciada pelos profetas, lhes foi dirigida segundo a misericórdia de Deus, manifestada com seu ministério, acolhendo-os na promessa feita aos patriarcas, isto é, àqueles que creram e amaram a Deus. E aos que vivem em sua santidade, a justiça e a paciência, o Deus de todos outorgará a vida eterna, por meio da ressurreição dos mortos. Graças Àquele que morreu e ressuscitou, Jesus Cristo, a quem [Deus Pai] confiou a realeza sobre todos os seres da terra, a autoridade sobre os vivos e os mortos e o juízo. Os apóstolos, com a palavra da verdade, exortaram os gentios a guardarem seus corpos sem mancha, tendo em vista a ressurreição, e sua alma afastada da corrupção.

A DEMOSTRAÇÃO PROFÉTICA (caps. 42-85)

A obra do Espírito nos fiéis e nos profetas
42. Com efeito, assim devem se comportar os crentes, pelo fato de que neles habita permanentemente o Espírito Santo, dado pelo Senhor no momento do batismo e custodiado por aquele que O recebe, se é que vive na verdade e santidade, na justiça e paciência. De fato, a ressurreição dos crentes é também obra deste Espírito, quando o corpo acolhe novamente a alma e, unida a ela, ressuscita pela força do Espírito Santo, introduzindo-se no reino de Deus. O fruto da bênção de Jafet é manifestado pela Igreja, que chamou os gentios que vivem em contínua obediência, para poder habitar a casa de Sem, segundo a promessa de Deus. Que estas coisas ocorreriam, predisse o Espírito Santo por meio dos profetas, a fim de que todos os que servem a Deus na verdade tenham fé firme sobre elas. Na verdade, todos esses fatos impossíveis à natureza humana e, portanto, pouco críveis aos homens, Deus, através dos profetas, os predisse muito tempo antes - e se realizaram cada um a seu tempo, como se anunciara - para que, pelo fato de terem sido profetizados, mesmo muito tempo antes, conhecêssemos que era Deus e que, desde o princípio, havia preanunciado a nossa salvação.

Identidade entre o Verbo e o Filho de Deus, por meio do qual tudo foi feito
43. Devemos crer em Deus porque Ele é verdadeiro em tudo. E crer que um Filho existia em Deus e que existia não só antes da sua aparição sobre o mundo mas também antes que o mundo fosse criado. Moisés foi o primeiro a profetizá-Lo, quando escreveu em hebraico: “beresit bara elovim basan benowam sament’ares”. Isto significa: “No princípio Deus estabeleceu o Filho, logo estabeleceu o céu e a terra”. O profeta Jeremias O testemunhou quando disse: “Antes da estrela da manhã te gerar e antes do sol, [é] teu nome”, isto é, antes da criação do mundo e antes das estrelas criadas com o mundo. Disse, todavia: “Ditoso Aquele que existia antes de ser homem”, pois, para Deus, o Filho foi o princípio anterior à criação do mundo, porém, para nós, não existe a partir de agora, isto é, desde que se manifestou. Antes, pois, não existia para nós, porque não O conhecíamos. Por isso, seu discípulo João, explicando-nos quem era o Filho de Deus que estava junto ao Pai antes que o mundo fosse formado e, por sua mediação, tudo foi criado, disse: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava, no princípio, com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele e, sem Ele, nada do que foi feito se faria” (Jo. 1,1-3). Desta forma, demonstra claramente que todas as coisas foram criadas por meio deste Verbo, o qual desde o princípio estava com o Pai, isto é, seu Filho.

O Filho de Deus conversa com Abraão
44. Diz também Moisés que o Filho de Deus se aproximou de Abraão para conversar como ele: “E Deus apareceu junto aos carvalhos de Mambré, ao meio dia… E levantando os olhos, viu três homens de pé frente a ele; se prostrou por terra, dizendo: ‘Se realmente encontrei graça aos vossos olhos…’” (Gen. 18,1-3). E, em continuação, o que dialogaram entre si. Pois bem, dois dos três eram anjos, mas o terceiro era o Filho de Deus. A Ele também se dirigiu Abraão, ao suplicar-lhe pelos habitantes de Sodoma, para que não fossem exterminados se ao menos fossem encontrados dez justos entre eles. Não obstante a isso, os dois anjos que vieram a Sodoma foram recebidos por Lot. A este respeito diz a Escritura: “O Senhor fez chover enxofre e fogo provenientes do Senhor, a partir do céu, sobre Sodoma e Gomorra” (Gen. 19,24). Quer dizer que o Filho, aquele mesmo que conversava com Abraão, sendo “Senhor”, recebera o poder de castigar os habitantes de Sodoma, “do Senhor, a partir do céu”, do Pai, que é o Senhor do universo. Abraão, pois, era profeta e viu o que se sucederia no futuro, a saber, como o Filho de Deus, sob a forma humana, conversaria com os homens, comeria com eles e logo exerceria o ofício de juiz, pelo fato de ter recebido do Pai, Senhor do universo, a autoridade para castigar os habitantes de Sodoma.

Jacó contempla o Verbo
45. E também Jacó, quando viajou à Mesopotâmia, sonhou que estava de pé, no alto de uma escada, isto é, no madeiro que fixava a terra ao céu. Pois, por este madeiro, os que crêem n’Ele ascendem ao céu, porque sua paixão é nossa ascensão. Todas as visões deste gênero significam o Filho de Deus que conversa com os homens e está no meio deles. Certamente, não é o Pai do universo, invisível ao mundo e criador de tudo, quem diz: “O céu é o meu trono e a terra o estrado de meus pés; que casa edificareis para o meu descanso?” (Is. 66,1-2; At. 7,49), e: “Quem sustenta a terra em um punho e o céu na palma da mão?” (Is. 40,12). Não era certamente Ele que estava de pé em um pequeno espaço e conversava com Abraão, mas sim o Verbo de Deus que, sempre presente no meio do gênero humano, nos dava a conhecer antecipadamente o que iria se suceder e instruía os homens sobre as coisas de Deus.

O Filho de Deus conversa com Moisés
46. Foi Ele que na sarça ardente conversou com Moisés e disse: “Tenho visto os sofrimentos do meu povo no Egito e vim libertá-lo” (Ex. 3,7-8). Ele subia e descia para libertar os oprimidos, arrancando-os do poder dos egípcios, isto é, de toda classe de idolatria e impiedade; salvando-os do mar Vermelho, isto é, libertando-os das turbulências homicidas dos gentios e das águas amargas de suas blasfêmias. Estes acontecimentos eram contínua repetição do que se refere a nós, no sentido de que o Verbo de Deus mostrava, antecipadamente, o que ocorreria no futuro, enquanto que, agora, nos arranca de verdade da servidão cruel dos gentios. E no deserto, fez brotar, com abundância, a partir da pedra, um rio de água. E a pedra era Ele. E produziu fontes potáveis, isto é, a doutrina dos doze apóstolos. E aos recalcitrantes e incrédulos, fez morrer e desaparecer no deserto; e aos que creram n’Ele, feitos meninos para a malícia, os introduziu na herança dos pais, que recebeu e distribuiu, não Moisés, mas Jesus. E mais: nos libertou de Amaleq, estendendo suas mãos, e nos conduziu e elevou ao reino do Pai.

A Unção do Verbo
47. O Pai, pois, é Senhor e o Filho é Senhor; é Deus o Pai e é Deus o Filho, porque o que nasceu de Deus é Deus. Assim, segundo a essência de seu ser e de seu poder, há um só Deus; porém, ao mesmo tempo, na administração da economia de nossa redenção, Deus aparece como Pai e como Filho. E visto que o Pai do universo é invisível e inacessível aos seres criados, é por meio do Filho que os destinados a aproximarem-se de Deus devem conseguir o acesso ao Pai. Davi, clara e objetivamente, se expressou deste modo a propósito do Pai e do Filho: “Teu trono, ó Deus, permanece para sempre; tu amas a justiça e detestas a iniqüidade. Por isso, Deus te ungiu com óleo de alegria mais que aos teus companheiros”. Isto significa que o Filho, enquanto Deus, recebe do Pai, isto é, de Deus, o trono de um reino eterno e o óleo da unção mais que seus companheiros. O óleo da unção é o Espírito Santo com que é ungido, e seus companheiros são os profetas, os justos, os apóstolos e todos os que participam do reino, isto é, seus discípulos.

O primado e realeza de Cristo, Sacerdote eterno
48. E também disse Davi: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu faça dos teus inimigos o estrado de teus pés. A partir de Sião, estenderá o Senhor um cetro de poder, dominará em meio aos teus inimigos! Contigo, no princípio, no dia do teu poder, no esplendor dos santos, do seio antes da aurora, te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá. Tu és sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec e o Senhor está à tua direita. No dia de sua cólera, derrubará os reis, julgará as nações, encherá de ruínas e quebrará as cabeças de muitos sobre a terra. No caminho, beberá da torrente e, por isso, levantará a cabeça” (Sal. 109,1-7). Por estas palavras, anunciou que veio primeiro à existência, dominou os povos, julgou os homens e os reis, e os que o aborrecem agora e perseguem seu nome, pois esses são seus inimigos. Denominando-lhe “sacerdote eterno” de Deus, declara-lhe a imortalidade. Quando disse: “No caminho, beberá da torrente e, por isso, levantará a cabeça”, se referia à sua exaltação gloriosa, depois de sua condição humana, de sua humilhação e rejeição.

O Filho de Deus rei universal
49. O profeta Isaías, por sua vez, afirma: “Assim diz o Senhor Deus ao Ungido, meu Senhor, o qual coloquei à minha direita para que O obedeçam as nações” (Is. 45,1). Quanto à afirmação de que o Filho de Deus é chamado Ungido e rei das nações, significa: de todos os homens. Davi repete que Ele é chamado Filho de Deus e rei de todos, com estas palavras: “O Senhor me disse: tu és meu Filho. Eu te gerei hoje. Pede e te darei como herança as nações; as darei como propriedade até os confins da terra” (Sal. 2,7-8). Estas palavras não foram pronunciadas com referência a Davi, pois não governou todas as nações, nem toda terra, mas somente os judeus. É, pois, evidente, que a promessa feita ao Ungido, de reinar sobre toda a terra, se refere ao Filho de Deus, Aquele que o próprio Davi reconhece como seu Senhor quando escreve: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita” (Sal. 109,1), como nos referimos há pouco. Com efeito, isto significa que o Pai conversa com o Filho, como demonstramos acima, à propósito de Isaías que diz: “Assim disse o Senhor ao Ungido, meu Senhor: obedeçam-te as nações”. Idêntica promessa aparece em ambos os profetas: Ele será rei - consequentemente, as palavras de Deus se referem a uma só e mesma pessoa, a saber, Cristo, Filho de Deus. Desde o momento em que Davi disse: “Disse o Senhor”, é preciso afirmar que nem Davi nem outro profeta falam por iniciativa própria, pois não é o homem quem profere profecias, mas o Espírito de Deus, o qual, tomando figura e formas semelhantes às pessoas interessadas, falava pelos profetas e discorria ora em nome de Cristo, ora em nome do Pai.

Testemunho dos profetas sobre a preexistência de Cristo
50. Oportunamente, pois, Cristo afirma, por intermédio de Davi, que o Pai fala com Ele, e, por meio dos profetas, diz Ele mesmo, por conta própria, as demais coisas, como, por exemplo, entre outras que Isaías escreveu: “E agora, assim fala o Senhor, o que me formou para ser seu servidor desde o seio materno, para fazer que Jacó volte a Ele e que se una a Israel. Serei glorificado aos olhos do Senhor e meu Deus será a minha força… Ele me disse: ‘Grande coisa será para ti ser chamado de meu servo, para levantar e restabelecer as tribos de Jacó e fazer voltar os afastados de Israel. Te coloquei como luz das gentes, para que a minha salvação alcance até os confins da terra’” (Is. 49,5-6).

O Filho servo do Pai
51. Porque aqui, sobretudo, do colóquio do Pai com o Filho e do fato de que ainda antes de seu nascimento o Pai O fez visível aos homens, deduz-se a preexistência do Filho de Deus. Depois, [também se manifesta], ainda antes de nascer, o que deveria ser homem nascido de humanos, o que Deus formaria do seu seio - isto é, que nasceria do Espírito de Deus -, o que é Senhor de todos os homens e Salvador dos que crêem n’Ele, dos judeus e de todos os homens. “Israel”, de fato, é o nome do povo judeu em língua hebraica, nome que provém do patriarca Jacó, que foi o primeiro a ser chamado “Israel”; e denomina “gentios” a todos os homens. O Filho de Deus chama a Si mesmo “servo do Pai”, por causa de sua obediência ao Pai, já que todo filho, ainda aqui entre os homens, é servo do seu pai.

A preexistência à luz da Escritura
52. Cristo, Filho de Deus, existente antes do mundo, estava com o Pai e junto ao Pai, e, ao mesmo tempo, próximo aos homens e em íntima união com eles, rei do universo, pois o Pai lhe submeteu todas as coisas; é Salvador daqueles que crêem n’Ele; tal é a mensagem dos textos da Escritura. Porque não é nossa intenção, nem está, por outro lado, dentro de nossas possibilidades, fazer a relação de todos os textos bíblicos, mas com o auxílio das passagens já citadas, poderás compreender também as outras que falam de maneira semelhante, devendo interpretá-las com a condição de que creias em Cristo e peças a Deus sabedoria e inteligência para compreender tudo o que foi dito pelos profetas.

O sinal profético que anuncia o Messias-Cristo e Jesus-Salvador
53. Que este Cristo, que estava junto ao Pai, deveria encarnar-se, fazer-se homem, submeter-se à geração e ao nascimento de uma Virgem, e viver entre os homens, operando, assim mesmo, o Pai do universo sua encarnação, é o que expressa Isaías: “Pois o Senhor mesmo vos dará um sinal; eis que uma virgem conceberá e dará à luz a um filho, que chamareis Emanuel; comerá manteiga e mel e, antes de distinguir o mal, escolherá o bem, porque antes que esse menino conheça o bem e o mal, rejeitará o mal para escolher o bem” (Is. 7,14-16). Apontou que nasceria de uma Virgem; demonstrou que seria verdadeiramente homem pelo fato de comer e chamar-lhe “menino”, e até mesmo a designar seu nome, já que este provém do porquê nasceu. Em hebraico, tem um duplo nome: Messias-Cristo e Jesus-Salvador. Estes dois nomes indicam as obras que realizaria. Com efeito, ao receber o nome de Cristo, porque o Pai, por seu intermédio e considerando sua vinda como homem, O ungiu e lhe dispôs todas as coisas; porque foi ungido pelo Espírito de Deus, seu Pai, como afirma, referindo-se a Si mesmo em Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para levar a boa nova aos pobres” (Is. 61,1). E o nome de Salvador porque é causa de salvação para todos os que, a partir de então, foram libertados por Ele de toda enfermidade e da morte; para os que viessem a crer n’Ele após estes, também dá a salvação eterna.

Emanuel: Deus conosco
54. Eis aqui por que é chamado de Salvador: Emanuel se traduz por “Deus conosco”, ou como expressão de bom desejo formulada pelo profeta, “Deus está conosco”. Deste modo, Ele é a interpretação e a revelação da boa nova. Por isso diz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz a um filho” (Is. 7,14). E este, que é Deus, tem o destino de estar conosco. E ao mesmo tempo, maravilhado por tal acontecimento, anuncia o que se sucederá, isto é, que Deus estará conosco. E também, com relação ao seu nascimento, o mesmo profeta diz em outra parte: “Antes que gere a que está em dores e antes que cheguem as dores do parto, dará à luz um menino” (Is. 66,7). Assim, deu a conhecer o inesperado e inaudito de seu nascimento a partir de uma Virgem. O mesmo profeta diz também: “Um filho nos nasceu, um menino nos foi dado; e recebeu o nome ‘Admirável Conselheiro’, ‘Deus Forte’” (Is. 9,6).

Admirável Conselheiro
55. É chamado “Admirável Conselheiro”, seja do Pai, seja nosso! Do Pai é indicado pelo fato de que o Pai fez com ele todas as coisas, segundo diz o primeiro livro de Moisés, intitulado “Gênese”: “E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gen. 1,26). Aqui, visivelmente, falou o Pai ao Filho, como Admirável Conselheiro do Pai… Ele também é nosso conselheiro; fala e não obriga, como Deus, ainda que seja igualmente como o Pai, “Deus forte”. Nos aconselha a renunciar à ignorância e receber o conhecimento, aparta-nos do erro para conduzir à verdade, rejeitar a corrupção para possuir a incorruptibilidade.

A paz e seu domínio não terão limites
56. E Isaías diz de novo: “Quererão ser consumidos pelo fogo, porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, em cujos ombros esteve o poder e é chamado com o nome do anjo do grande conselho. E trará a paz entre os príncipes e também a paz e a salvação para Ele. Grande é o seu domínio e a paz não terá limites sobre o trono de Davi e seu reino, para sustentá-lo e consolidá-lo com a justiça e o direito, a partir de agora e para sempre” (Is. 9,5-7 [LXX]). Nestes termos é anunciado o nascimento do Filho de Deus e a eternidade do seu reino. Porém, as palavras “quererão ser consumidos pelo fogo” (Is. 9,5 [LXX]) são ditas dirigindo-se àqueles que não crêem no Emanuel e lutaram contra Ele. Pois dirão no dia do Juízo: “Oxalá tivéssemos sido queimados antes do nascimento do Filho de Deus que não ter crido n’Ele após seu nascimento!”, porque aqueles que morreram antes da manifestação de Cristo têm esperança de obter a salvação no Juízo do Ressuscitado. A esta categoria pertencem todos os que temeram a Deus e morreram na justiça, possuídos pelo Espírito de Deus, como os patriarcas, os profetas e os justos. Mas para aqueles que após a manifestação de Cristo não creram n’Ele, será inexorável a reivindicação em juízo. Quanto à expressão “em cujos ombros estiveram o poder” (Is. 9,6), designa-se alegoricamente a cruz, na qual teve pregados seus braços, porque a cruz, que era e é opróbrio para Ele - e para nós, em razão d’Ele - essa mesma cruz é, dizemos, seu poder, a saber, o sinal de sua realeza. É chamado “anjo do grande conselho” d’Aquele Pai que Ele nos revelou.

O esperado das nações
57. Por tudo o que foi dito e exposto, com a ajuda dos profetas, está claro que o Filho de Deus deveria nascer, a maneira como deveria nascer e como se daria a conhecer como Cristo. Inclusive, foi predito em qual país e entre quais homens deveria nascer e dar-se a conhecer. Assim o dá a entender Moisés, na Gênese: “Não faltará um príncipe a Judá, nem um chefe de sua estirpe, até que venha Aquele a quem está reservado; e Ele será esperado pelo povo, lavará no vinho sua vestimenta e no produto da uva o seu manto” (Gen. 49, 10-11). Porém, Judá, filho de Jacó, é o antepassado dos judeus, de quem estes tomaram seus nomes. Até a vinda de Cristo, não lhes faltou nem príncipe, nem chefe. Porém, depois da sua vinda, foram-lhes retiradas as armas e o país dos judeus foi submetido pelos romanos e não mais voltou a ter um príncipe ou rei próprio, já que havia vindo Aquele a quem está reservado o reino do céu, Aquele que lavou “sua vestimenta no vinho e no produto da uva”. Sua vestimenta, igual ao manto, são aqueles que crêem n’Ele, a quem Ele também purificou, com seu sangue. E Seu sangue se diz “de uva” porque assim como não é produto do homem o produto da uva (mas de Deus, que faz com que se alegrem aqueles que dele bebem), de igual forma Seu corpo e Seu sangue não são obra do homem, mas de Deus. O próprio Senhor deu o sinal da Virgem, isto é, o Emanuel nascido da Virgem, e alegra os ânimos de quem o bebe, isto é, daqueles que recebem seu Espírito, alegria eterna. Por isso, também é esperado pelo povo, para aqueles que esperam n’Ele; também nós esperamos d’Ele a restauração do reino.

A estrela de Jacó
58. E Moisés, quando escreve novamente: “Se levantará uma estrela de Jacó e um chefe surgirá de Israel” (Núm. 24,17), anuncia explicitamente que a economia de Sua encarnação se realizará entre os hebreus e que Aquele que desceu do céu e nasceu de Jacó e da estirpe judaica se submeteu a esta economia. Porque uma estrela apareceu no céu e se se chama chefe a um rei é porque este é o rei de todos os salvos. Por outro lado, esta estrela apareceu, quando de Seu nascimento, aos magos que habitavam no Oriente e, por seu intermédio, tomaram conhecimento do nascimento de Cristo. Guiados pela estrela, vieram à Judéia, até que a estrela chegou em Belém, onde tinha nascido Cristo, e, entrando na casa onde o menino estava envolto em panos, se deteve sobre sua cabeça, indicando aos magos o Filho de Deus, Cristo.

O broto de Jessé
59. E o mesmo Isaías diz uma vez mais: “Sairá um broto do tronco de Jessé e de sua raiz brotará uma flor. Sobre Ele pousará o Espírito de Deus, espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de piedade. O espírito o encherá de temor de Deus. Não julgará apenas pela opinião, nem acusará somente pelos rumores, mas julgará a causa do humilde e terá piedade dos humildes da terra. Castigará a terra com a palavra da sua boca, executará o ímpio com o sopro dos seus lábios. A justiça será o cinturão de seu lombo e a lealdade o cinturão de seus rins. Pastará o lobo com o cordeiro, o leopardo com o cabrito, o novilho e o leão pastarão juntos… A criança colocará a mão na boca da áspide e na toca das víboras e não lhe causarão dano. Naquele dia sucederá… A raiz de Jessé é aquele que se verga para exercer o poder sobre as nações e estas a Ele buscaram; e sua ressurreição será gloriosa” (Is. 11,1-10). Com estas palavras, quer dizer que nascerá daquela que descende de Davi e de Abraão. Efetivamente, Jessé descendia de Abraão e era pai de Davi. Deste modo, a Virgem, que concebeu a Cristo era o broto. Por isso, Moisés fazia seus prodígios perante o faraó, servindo-se de um bastão. Entre os homens, o bastão é símbolo de poder. Chama “flor” ao seu corpo, que floresceu sob a ação do Espírito, como já indicamos.

Justo Juiz
60. Quanto a: “Não julgará somente pela opinião, nem acusará somente pelos rumores, mas julgará a causa do humilde e terá piedade do humilde da terra” (Is. 11,3-4), dá a entender, com maior firmeza, sua divindade. Pois julgar imparcialmente e sem acepção de pessoas, sem honrar o ilustre e outorgando ao pobre o que merece em eqüidade e igualdade é conforme à suprema e celeste justiça de Deus. Deus, com efeito, não se deixa influenciar por ninguém, e só se compadece do justo. E fazer misericórdia é próprio e peculiar daquele Deus que pode, assim mesmo, salvar em virtude da sua misericórdia. E “ferirá a terra com uma palavra e destruirá o ímpio com uma só palavra” (Is. 11,4) é próprio de Deus que faz todas as coisas com seu Verbo. Quando disse: “A justiça será o cinturão de seu lobo e a verdade cinturão de seus rins” (Is. 11,5), anuncia sua forma externa humana e sua verdadeira e suprema justiça.

A concordância e a paz universal
61. Quanto ao entendimento, a concórdia e a paz entre os animais de espécies diferentes e que, por natureza, são contrários e hostis uns aos outros, ensinam os Presbíteros que assim será verdadeiramente quando da vinda de Cristo, no tempo que deverá pessoalmente reinar sobre todas as coisas. Pois já [aqui], simbolicamente, dá a conhecer que os homens de raças diferentes, mas de costumes semelhantes, se juntarão na concórdia e paz, graças ao nome de Cristo; porque os justos [unidos], vistos que comparados aos novilhos, cordeiros, cabritos e crianças pequenas, não sofrerão dano por parte de ninguém que, em época anterior, eram - homens e mulheres - bestas ferozes, em razão de sua cobiça, por formas e costumes, a ponto de alguns se assemelharem a lobos ou leões; ou despojavam dos bens os mais pobres e empreendiam guerra contra seus semelhantes; ou mulheres que eram como leopardos e víboras, quando, recorrendo a venenos mortais, entregavam à morte seus próprios amantes, ou os arrastavam em paixões… Reunidos sob um só nome, passarão a ter costumes justos, pela graça de Deus, mudando sua natureza selvagem e feroz. Isso já ocorreu, pois os que antes eram extremamente cruéis, a ponto de não retroceder em nenhum ato ímpio, uma vez instruídos sobre Cristo e acreditando n’Ele, têm testemunhado a fé e mudado a ponto de não retrocederem perante nenhum excesso de justiça. Grande é a mudança que a fé em Cristo, Filho de Deus, opera naqueles que crêem n’Ele. E se diz: “Se levantou para governar os gentios” (Is. 11,10), é porque, uma vez morto, ressuscitará e será confessado e aceito por Filho de Deus, rei. Por isso, diz: “E sua ressurreição será gloriosa” (Is. 11,10), isto é, magnífica, porque no momento em que ressuscitou foi glorificado como Deus.

A tenda de Davi e o corpo de Cristo
62. Por isso, o profeta, quando diz: “Naquele dia levantarei a tenda de Davi, caída sobre a terra” (Am. 9,11), afirma claramente que o corpo de Cristo, nascido de Davi, como dissemos, depois da morte, é ressuscitado dos mortos. Chama tenda ao seu corpo e, com efeito, por estas palavras, diz também que Cristo - o qual, segundo a carne, descende de Davi - será Filho de Deus e, depois de sua morte, ressuscitará e será homem no aspecto externo, porém Deus pelo poder, se tornando juiz do universo e o único justo e redentor. Tudo isso se encontra na Escritura.

Belém, pátria de Davi
63. Por sua vez, o profeta Miquéias indicou também o lugar do nascimento de Cristo, a saber, em Belém de Judá. Expressa-se assim: “E tu, Belém de Judá, não és insignificante entre as cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe que será pastor do meu povo, Israel” (Miq. 5,1). Porém, Belém é também o povo de Davi, de sorte que Cristo é da posterioridade de Davi, não apenas pela Virgem que lhe trouxe à luz, mas também por ter nascido em Belém, pátria de Davi.

Rei para sempre
64. Por sua vez, diz Davi que Cristo nasceria da sua posterioridade: “Por causa de Davi, teu servo, não apartes o rosto de teu Cristo. O Senhor jurou a Davi a verdade e não a mentira: do fruto do teu seio colocarei sobre o teu trono, se teus filhos guardarem a minha aliança e os meus testemunhos, objeto de meu pacto com eles; e assim será até a eternidade” (Sal. 131,10-12). Mas não há nenhum, entre os filhos de Davi, que tenha reinado até a eternidade, nem seu reino permaneceu para sempre, pois foi destruído; indica, com efeito, o rei que nasceu de Davi, a saber, Cristo. Todos estes testemunhos dão a entender claramente sobre o seu descendente segundo a carne, tanto a linhagem como o lugar onde iria nascer. Os homens não têm razão para procurar o nascimento do Filho de Deus entre os gentios ou em qualquer outro lugar, mas apenas em Belém de Judá, entre a descendência de Abraão e Davi.

A entrada em Jerusalém
65. Sua entrada em Jerusalém, a capital da Palestina, onde estava sua residência e o Templo de Deus, é atestada por Isaías: “Dizei à Filha de Sião: eis que aqui vem o teu doce rei, sentado em um asno, sobre um burrico, filhote de asna” (Is. 62,11). Entrou em Jerusalém sentado sobre um filhote de asna e a multidão cobria seu caminho com mantos para que passasse por cima. “Filha de Sião” é o nome dado à Jerusalém.

O anúncio dos profetas
66. Os profetas anunciavam, então, que o Filho de Deus haveria de nascer, a forma e o lugar onde deveria nascer e quem era o Cristo, o único rei eterno. Predisseram também que, uma vez feito homem, haveria de curar aos que efetivamente curou, de ressuscitar os mortos que efetivamente ressuscitou; que seria odiado, desprezado, torturado, assassinado e crucificado, como de fato foi odiado, desprezado e assassinado.

Os milagres de Jesus
67. Trataremos agora das curas. Diz Isaías: “Suportou nossas doenças e agüentou nossas dores” (Is. 53,4; Mat. 8,17), isto é, suportará e agüentará. Às vezes, o Espírito de Deus narra no passado aos profetas, mas são acontecimentos que se sucederão no futuro. Isto ocorre porque em Deus o que é estabelecido, determinado e destinado a existir já se considera como existente e o Espírito se expressa tendo em conta o tempo em que se realiza a profecia. Nestes termos, recorda os distintos modos de curas: “Naquele dia, ouvirão os surdos as palavras do livro; e nas trevas e obscuridade verão os olhos dos cegos” (Is. 29,18). E, todavia: “Fortalecei-vos, mãos débeis, joelhos vacilantes e débeis; animai-vos, pusilânimes, tomai força, não temais. Olha! Nosso Deus faz justiça, virá nos salvar. Então se abrirão os olhos dos cegos e ouvirão os ouvidos dos surdos; então o coxo saltará como um cervo e se soltará a língua do mudo” (Is. 35,3-6). E acerca da ressurreição dos mortos, diz: “Assim ressuscitarão os mortos e se levantarão os que se encontram nos sepulcros” (Is. 26,19). Quando isto se cumprir, se crerá que é o Filho de Deus…

A Paixão de Cristo
68. Isaías diz que seria desprezado, torturado e, finalmente, assassinado: “Eis aqui sobre o meu Filho: será exaltado e grandemente glorificado. Como muitos se espantarão de ti, assim sem glória será o teu rosto aos olhos dos homens; muitos povos se assombrarão e os reis fecharão a boca porque contemplaram algo inenarrável e compreenderam algo inaudito. Senhor, quem criou nosso anúncio? A quem se revelou o braço do Senhor? Temos narrado perante Ele, como a uma criança, como a uma raiz em terra árida; não tinha figura, nem glória. O vimos sem aspecto e sem beleza. Seu aspecto era desprezível, mais abatido que os demais homens. Homem de dores acostumado a sofrimentos; porque voltava seu rosto para outro lado, era desprezado e diminuído. Ele carregou nossos pecados e sofreu por amor a todos; o temos como vítima da dor, dos golpes e torturas. Foi traspassado por nossos delitos, maltratado por nossos pecados. O castigo que nos dá a paz caiu sobre Ele e suas cicatrizes nos curaram” (Is. 52,13-53,5). Davi anuncia com estas palavras as suas torturas: “Fui torturado” (Sal. 38,9). No entanto, Davi nunca foi torturado, mas Cristo, quando ordenaram que fosse crucificado. Uma vez mais o Verbo diz em Isaías: “Ofereci as costas aos golpes e a face às bofetadas; não escondi meu rosto dos ultrajes e cusparadas” (Is. 50,6). O profeta Jeremias repete o mesmo, nestes termos: “Apresentará a face ao que bate e será cumulado de xingamentos” (Lam. 3,30). Tudo isto sofreu Cristo.

A Paixão e sua sentença
69. Isaías continua assim: “Graças às suas chagas, fomos todos curados. Éramos errantes como um rebanho, cada qual seguia seu próprio caminho e o Senhor o consignou por nossos pecados” (Is. 53,5-6.7). Está claro que pela vontade do Pai se sucederam estas coisas em favor da nossa salvação. E logo prossegue: “Apesar de seus padecimentos, não abriu a boca; como ovelha, foi levado ao matadouro; como cordeiro perante o tosquiador está sem voz” (Is. 53,7). Desta forma, anuncia que aceita livremente a morte. Mas ao dizer o profeta: “Na humilhação foi eliminado seu juízo” (Is. 53,8), refere-se ao seu aspecto exterior humilde. Segundo seu aspecto, sem honra foi pronunciada a sentença; e proferida a sentença, conduz alguns à salvação e, a outros, às penas da perdição. Efetivamente, toma a alguns e rejeita a outros. Assim é a sentença: alguns sofrem e tomam para si a própria condenação; para outros, é eliminada e se salvam. Carregam a sentença sobre si aqueles que o crucificaram e, portando-se assim, não creram n’Ele; de tal sorte, a sentença recebida por eles os condenará à perdição entre os tormentos. A sentença foi eliminada para os que n’Ele creram, e já não estão mais sujeitos à ela, isto é, à sentença de condenação. A sentença de condenação, acompanhada de fogo, será o extermínio dos incrédulos, no fim deste mundo.

A geração inenarrável
70. A continuação diz: “Quem narrará seu nascimento?” (Is. 53,8). Isto se disse para que fiquemos atentos a fim de que não sejamos considerados como homem insignificante e de pouca importância, em razão dos Seus adversários e das dores da Sua Paixão. Aquele que sofreu tudo isto possui origem inefável. Porque, por nascimento, se entende sua origem, ou seja, seu Pai inefável e indescritível. Reconhece, pois, que esta é a origem d’Aquele que suportou esta Paixão. E não desprezes a Paixão que sofreu intencionalmente por ti! Mas, por sua origem, guardai-lhe temor!

A vida à sombra de seu corpo
71. Diz em outra parte Jeremias: “O Espírito de nosso rosto é o Senhor Cristo; como foi apressado em suas redes aquele de quem falamos: à sua sombra viveremos entre as nações” (Lam. 4,20). A Escritura diz que Cristo, mesmo sendo Espírito de Deus, deveria fazer-se homem, submetido ao sofrimento, e revela, de certo modo, surpresa e sobressalto pela Paixão, como sofreria Aquele à cuja sombra dissemos que iríamos viver. Sombra significa seu corpo, pois assim como a sombra é produzida por um corpo, assim o corpo de Cristo foi produzido por seu Espírito. Mas a palavra sombra significa, também, a humilhação de seu corpo e a facilidade de ser humilhado. Com efeito, como a sombra dos corpos erguidos se projeta ao solo e é pisada pelos pés, assim o corpo de Cristo, atirado à terra na Paixão foi, por assim dizer, pisado pelos pés. Chama-se “sombra” ao corpo de Cristo por ter sido a sombra da glória do Espírito que velava. Com freqüência, ao passo do Senhor, havia, ao longo de seu caminho, pessoas afetadas por diversas enfermidades e todas as que eram tocados por sua sombra alcançavam a salvação.

A morte do Justo
72. E o mesmo profeta, referindo à Paixão de Cristo, diz o seguinte: “Eis aqui como o Justo pereceu e ninguém deu importância; os justos são retirados do meio e ninguém se preocupa, pois o justo é levado perante a injustiça. Sua sepultura será a paz: ele foi preservado” (Is. 57,1-4). Que outro alguém foi perfeitamente justo senão o Filho de Deus, que torna justos aqueles que n’Ele crêem, os quais, à semelhança d’Ele, são perseguidos e mortos? Quando diz: “Sua sepultura será a paz”, dá a conhecer como morreu por nossa salvação, que está na paz da salvação; e [anuncia] que, por sua morte, aqueles que antes eram inimigos e adversários uns dos outros, tendo acreditado n’Ele, alcançarão a paz entre si, oferecendo e recebendo sinais de amizade em razão da fé comum n’Ele. É exatamente isso o que ocorre. A expressão “foi preservado” refere-se à ressurreição dos mortos, porque, após sepultado, ninguém O viu morto. Logo, uma vez morto e ressuscitado, Cristo permaneceria imortal, como diz o profeta, nestes termos: “Pediu a vida e Tu a concedeste além da longevidade pelos séculos dos séculos” (Sal. 21,5). Por que disse “pediu a vida”, quando deveria morrer? Com efeito, anuncia Sua ressurreição de entre os mortos, e uma vez ressuscitado dos mortos, é imortal. Assim, recebeu a vida para ressuscitar e a “longevidade pelos séculos dos séculos” para ser incorruptível.

A morte (sonho) e ressurreição segundo Davi
73. E diz novamente Davi, a respeito da morte e ressurreição de Cristo: “Encostei-me e dormi; despertei porque o Senhor me acolheu” (Sal. 3,6). Davi não dizia isto de si mesmo, pois uma vez morto, não ressuscitou. Mas o Espírito de Cristo, que também falou d’Ele por outros profetas, fala também agora através de Davi: “Encostei-me e dormi; despertei porque o Senhor me acolheu” (Sal. 3,6). Chama a morte de sonho, porque ressuscitou.

Herodes e Pilatos
74. Sobre a Paixão de Cristo, Davi diz: “Porque se agitam os gentios e os povos planejam fracassos? Os reis da terra se aliam e os príncipes conspiram contra o Senhor e seu Ungido” (Sal. 2,1-2; At. 4,24-28). De fato, Herodes, rei dos judeus, e Pôncio Pilatos, procurador de Cláudio César, reuniram-se e O condenaram à crucificação. Porque Herodes temia perder o reinado, como se Ele quisesse ser um rei mundano; e Pilatos foi obrigado, contra a sua vontade, por Herodes e pelos judeus que o cercavam, a condená-Lo à morte, porque, de outra forma, interpretariam-no como contrário a César, por deixar livre um homem que atribuiu a Si mesmo o título de Rei.

O anúncio da Paixão
75. E, a respeito da Paixão, diz também o mesmo profeta: “Tu nos rejeitaste e desprezaste; repudiaste ao teu Ungido; rompeste a aliança de meu Servo; demoliste o teu santuário, derrubaste sua cerca, estremeceste suas fortalezas; quantos que passam por ali a saqueiam; converteu-se na ironia de seus vizinhos; fortaleceste a energia de seus opressores, alegraste aos seus inimigos; torceste-lhe a espada e não a sustentas no combate; excluíste-lhe da purificação, atirando por terra o seu trono; abreviaste os dias de seu tempo e a cobriste de ignomínia” (Sal. 88,39-46). O profeta afirma abertamente que Ele deveria sofrer tudo isto, por ser a vontade do Pai. Pela vontade do Pai, sofreu a Paixão.

A captura de Jesus
76. Zacarias assim se expressa: “Apontaste a espada contra o meu Pastor, contra o Homem, meu companheiro; fere o Pastor e se dispersarão as ovelhas do rebanho” (Zac. 13,7; Mat. 26,31; Luc. 14,27). Isto se sucedeu quando foi capturado pelos judeus. Então todos os discípulos O abandonaram, com medo de perecer com Ele, porque não acreditavam firmemente n’Ele, até que O viram ressuscitado dos mortos.

Jesus, motivo de reconciliação entre Pilatos e Herodes
77. E também se diz nos doze profetas: “Prisioneiro, apresentaram-No ao rei como tributo” (Os. 10,6 [LXX]). Pôncio Pilatos era procurador da Judéia e guardava então um profundo rancor contra Herodes, rei dos judeus. Neste contexto, Pilatos enviou Cristo, que lhe fora entregue, amarrado, até Herodes, pedindo para que fosse interrogado e confirmasse o que se faria com Ele. Assim, Cristo se converteu em um bom pretexto para [Pilatos] reconciliar-se com o rei.

A descida aos infernos
78. E repara com que termos Jeremias se expressa para dar a conhecer Sua morte e Sua descida aos Infernos: “E o Senhor, o Santo de Israel, preocupou-se com seus mortos, os que já adormeceram no pó da terra, e, descendo até eles, levou-lhes a boa nova de sua salvação para salvá-los”. Revelam-se, aqui também, as razões da Sua morte, porque Sua descida aos infernos visava a salvação dos defuntos.

Profecias sobre a Cruz
79. E novamente à respeito da cruz, diz Isaías: “Estendi as mãos todos os dias para um povo indócil e rebelde” (Is. 65,2). Prefigurava, assim, a cruz. E, todavia, diz Davi mais claramente: “Os cães da casa me rodearam, uma multidão de ímpios me cercou; perfuraram minhas mães e meus pés” (Sal. 21,17). E novamente: “Meu coração ficou como cera líquida, em meio às minhas entranhas; meus ossos se desconjuntaram” (Sal. 21,15). E prossegue, dizendo: “A espada perdoa a minha alma e perfura minhas carnes, pois uma multidão de ímpios se levantou contra mim”. Estas passagens mostram e indicam, de um modo claro, a Sua crucificação. Moisés diz a mesma coisa para o seu povo: “E tua vida passará diante de teus olhos, e temerás dia e noite, e não crerás na tua vida” (Deut. 28,66).

Profecias sobre as vestes
80. De novo, diz Davi: “Eles me olharam fixamente. Dividiram as minhas vestes e lançaram à sorte a minha túnica” (Sal. 21,19). Com efeito, quando O crucificaram, os soldados repartiram suas vestes, conforme o costume; “as vestes foram divididas após tê-las desgarrado; mas, quanto à túnica, como era tecida desde o alto e sem costura, lançaram à sorte, para ver quem a levava” (Jo. 19,23-24).

Judas, a venda de Cristo e a compra do campo do oleiro
81. O profeta Jeremias acrescenta: “Tomaram as trinta moedas de prata, o preço de alguém que foi taxado segundo a taxa dos filhos de Israel, e pagaram com elas o campo do oleiro, como me mandara o Senhor” (Mt. 27,9). Com efeito, Judas, um dos discípulos de Jesus, tendo se comprometido com os judeus e selado com eles um pacto - de fato, sabia que queriam matá-Lo - e porque fora repreendido por Ele, aceitou os trinta denários do país e entregou Cristo. A seguir, movido pelos remorsos do que havia feito, atirou o dinheiro aos pés dos chefes dos judeus e se enforcou. Estes, porém, não consideraram conveniente devolver o dinheiro ao Tesouro, pois era o preço de sangue, e com ele compraram o campo pertencente a um oleiro, para enterrar ali os estrangeiros.

Profecia sobre o vinagre misturado com fel
82. E uma vez crucificado, ao pedir para beber, deram-Lhe vinagre misturado com fel. Isto mesmo havia dito Davi: “Me darão fel como alimento e, para minha sede, ofereceram-me vinagre para beber” (Sal. 69,22; Mat. 27,34; Jo. 19,28).

A Ascensão
83. Eis aqui o que diz Davi sobre Sua ascensão ao céu, após a ressurreição de entre os mortos: “Os carros de Deus, em dezenas de milhares, com milhares de cocheiros, tem o Senhor entre eles; em Sião, no Santuário, subiu ao alto, cativou o cativeiro; recebeu e entregou dons aos homens” (Sal. 67,18-19). Por cativar, entende-se a destruição do poder dos anjos rebeldes. Deu a conhecer o lugar a partir de onde ascenderia, da terra para o céu, isto é, o Senhor, em Sião, ascendeu ao alto (Sal. 67,18). Com efeito, no monte das Oliveiras, em frente a Jerusalém, após ter ressuscitado dos mortos, reuniu seus discípulos e, recordando-lhes sobre o reino dos céus, foi elevado ante seus olhos e viram como O acolhiam, abertos, os céus.

O triunfo do Rei da glória
84. A mesma coisa diz novamente Davi: “Içai, ó príncipes, vossas portas; levantai, portas eternas, e entrará o rei da glória” (Sal. 23,7). As portas eternas são, efetivamente os céus. Mas como o Verbo desceu invisível para as criaturas, não foi reconhecido por elas. Porém, como se encarnara, fez-se visível quando ascendeu ao céu. Ao vê-Lo, os principados dos anjos inferiores gritaram aos que estavam no firmamento: “Içai vossas portas; içai, portas eternas, para que entre o rei da glória”. Estes, assombrados, se perguntavam: “Quem é este?”; e os que O tinham visto, atestaram pela segunda vez: “O Senhor, poderoso e forte, é o rei da glória” (Sal. 23,10).

O Juízo
85. Ressuscitado e ascendido ao céu, aguarda, à direita do Pai, o momento por Ele fixado para julgar todos os seus inimigos, que a Ele serão submetidos. Os inimigos são todos os que se rebelaram: anjos, arcanjos, principados, tronos, os que menosprezaram a verdade. Davi diz ainda: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que Eu ponha teus inimigos sob os teus pés” (Sal. 109,1). Ainda mais, Davi diz que subiu para o lugar de onde tinha vindo: “Ele sobe dos últimos confins do céu e seu repouso alcança o outro extremo do céu”. Assinala depois o juízo, ao dizer: “Ninguém escapará ao seu ardor” (Sal. 18,7).

A BOA NOVA (caps. 86-97)

O testemunho dos Apóstolos
86. Pois bem: se os profetas vaticinaram que o Filho de Deus deveria manifestar-se sobre a terra e predisseram o lugar, a maneira e a forma de sua manifestação sobre a terra, e se no Senhor se cumpriram todas estas predições, nossa fé n’Ele está bem fundamentada, é autêntica a tradição da pregação, isto é, o testemunho dos apóstolos. Estes, enviados pelo Senhor, pregaram pelo mundo inteiro que o Filho de Deus viera para sofrer a Paixão, a suportara para destruir a morte e dar vida ao corpo e, pondo fim à hostilidade a Deus, isto é, à iniqüidade, obteremos sua paz cumprindo o que for de Seu agrado. Assim nos foi dado a conhecer, pelos profetas, quando dizem: “Quão formosos são os pés dos mensageiros que anunciam a boa nova da paz, que pregam a alegre notícia do bem!” (Is. 52,7; Rom. 10,15). Isaías diz que estes mensageiros viriam da Judéia e de Jerusalém para nos anunciar a palavra de Deus, que para nós é também lei: “Pois de Sião sairá a lei e de Jerusalém a palavra de Deus” (Is. 2,3). Davi afirma que pregariam sobre toda a terra: “A toda terra alcança sua pregação e até os limites do orbe a sua palavra” (Sal. 18,5).

O primado do amor
87. Porém, não é com a loquacidade da lei que se salva o gênero humano, mas com a brevidade e precisão da fé e da caridade. Isaías diz: “Uma palavra concisa e breve na justiça, porque Deus enviará uma palavra concisa, eficiente, sobre toda terra”(Is. 10,23 [LXX];
Rom. 9,28). Por isso, Paulo afirma: “O amor é a plenitude da lei” (Rom. 13,10). Pois o que ama a Deus cumpre a lei. Quando perguntaram ao Senhor: “Qual o mandamento é o primeiro de todos?”, respondeu: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua força. E o segundo é similar a este: Amarás ao próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem a lei e os profetas” (Mc. 12,30; Mat. 22,37). Assim, pois, com a fé n’Ele, cresceu nosso amor por Deus e pelo próximo, fazendo-nos piedosos, justos e bons. É por isso que enviou, com eficácia, “uma palavra concisa sobre a terra”, no mundo.

Salvos pelo Homem-Deus
88. E que depois da ascensão deveria ser elevado sobre todas as criaturas e que ninguém haveria de ser semelhante ou comparado a Ele, o diz Isaías: “Quem é justo? Que compareça. Quem é justificado? Que se aproxime do Filho do Senhor. Ai de vós que os consumís como um vestido, pois o caruncho vos roerá. O homem será humilhado e abatido. Somente o Senhor será exaltado com aqueles que serão enaltecidos” (Is. 50,8.10.9). Isaías afirma que os que servirem a Deus serão, ao final, salvos por intermédio de seu nome: “Os que me servem receberão um novo nome, que será bendito sobre toda a terra, e eles bendizerão ao Deus verdadeiro” (Is. 65,15-16). Esta bênção deveria Ele realizá-la pessoalmente e Ele mesmo deveria salvar-nos por seu próprio sangue, segundo nos deu a conhecer Isaías, quando disse: “Não um intercessor ou um anjo, mas o Senhor pessoalmente os salvou, pois ama e toma cuidado com eles. Ele mesmo os redimiu” (Is. 63,9).

O Espírito sobre a face da Terra
89. Aos que foram assim libertados, [Deus] não quer levá-los novamente para a lei de Moisés - pois a lei se cumpriu em Cristo - mas sim salvá-los mediante a fé e o amor, pelo Filho de Deus, na renovação da Palavra, como o deu a conhecer Isaías, quando exclama: “Não recordeis o passado, não penseis no antigo; olha que renovo quem germina agora, e vós o conhecereis. Abrirei um caminho no deserto, suscitarei rios na região árida para dar de beber à minha nação e meu povo eleito, que adquiri para contar minhas proezas” (Is. 43,18-20). Deserta e erma era, antes, a vocação dos gentios, pois o Verbo não havia passado entre eles, nem lhes havia dado de beber do Espírito Santo. O [Verbo] dispôs o novo caminho da piedade e da justiça e fez brotar rios em abundância, disseminando o Espírito Santo sobre a terra, segundo prometera pelos profetas, que estenderia, ao fim [nos últimos tempos], o Espírito sobre a face da terra.

A novidade do Espírito
90. Nossa vocação, pois, acontece “na novidade do Espírito e não na letra vazia”, como profetizou Isaías: “Olha que chegam dias - diz o Senhor - em que Eu, com a casa de Israel e de Judá, farei [uma aliança nova, não como] a aliança que fiz com seus pais, quando os conduzi pela mão para tirá-los do Egito, pois eles quebraram a aliança e Eu me desinteressei deles - diz o Senhor. Porque esta será a aliança que farei com a casa de Israel após aqueles dias - diz o Senhor - colocarei minha lei em suas mentes e também as escreverei em seus corações. Eu serei seu Deus e eles serão o meu povo. Não ensinarão uns aos outros, como concidadãos e irmãos que dizem: ‘Conhecei ao Senhor’, porque todos me conhecerão, do menor ao maior, porque perdoarei suas maldades e não conhecerei mais seus pecados”.

A abertura da nova Aliança (o Novo Testamento)
91. E estas promessas seriam uma herança no tempo da vocação dos gentios, para quem foi também inaugurada a Nova Aliança. Assim o recorda Isaías, nestes termos: “Diz o Deus de Israel: Naquele dia, o homem colocará sua esperança em seu Criador e seus olhos contemplarão o Santo de Israel; e já não colocarão sua esperança nos altares dos ídolos, nem nas obras de suas mãos, que fabricaram com seus dedos” (Is. 17,6-8). Manifestamente, estas palavras são dirigidas àqueles que abandonam aos ídolos e crêem em Deus, nosso Criador, graças ao Santo de Israel. O Santo de Israel é Cristo. Ele se manifestou aos homens e n’Ele fixamos nosso olhar. E já não colocamos nossa esperança nos altares [dos ídolos] nem nas obras das nossas mãos.

Manifestado aos que não o buscavam
92. E que devia manifestar-se em meio a nós - porque o Filho de Deus se faria filho do homem - e que nós haveríamos de encontrar o que desconhecíamos, afirma o mesmo Verbo em Isaías: “Me manifestei aos que não me procuravam; fui encontrado pelos que não perguntavam de mim. Disse: Aqui estou, perante um povo que não invocara o meu nome” (Is. 65,1; Rom. 10,20).

Profecias sobre o povo de Deus
93. Que este povo fora chamado a ser um povo santo, vaticinou Oséias, um dos doze profetas: “Ao que não era meu povo, chamarei ‘povo meu’ e a não-amada será amada. Onde se diz que ali não pertence ao meu povo, ali se chamarão ‘filhos do Deus vivo’”(Os. 2,25; 1,9; Rom. 9,25-26). Também João Batista volta a dizer o mesmo: “Deus pode suscitar destas pedras filhos de Abraão” (Mat. 3,9). Com efeito, após sermos arrancados, pela fé, do culto às pedras, nossos corações vêem a Deus e fazem-nos filhos de Abraão, “o qual foi justificado pela fé” (Rom. 3,28; 4,3; Gál. 3,6). Por isso, diz Deus, pela boca do profeta Ezequiel: “E lhes darei um outro coração e colocarei neles um espírito novo; retirarei de seus corpos seus corações de pedra e lhes darei corações de carne, para que sigam meus mandamentos e observem e pratiquem os meus preceitos. Eles serão o meu povo e Eu serei o seu Deus” (Ez. 11,19-20; 36,26-27).

A Igreja e a Sinagoga
94. Daí que, pela nova chamada, realiza-se uma mudança de coração entre os gentios, por meio do Verbo de Deus que “se encarnou e armou sua tenda entre os homens”, como diz João, seu discípulo: “E seu Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo. 1,14). Portanto, a Igreja gera um grande número de frutos, isto é, de salvos, porque já não é um intercessor, Moisés, nem um mensageiro, Elias, quem nos salva, mas o próprio Senhor, que dá mais filhos à Igreja que à Sinagoga do passado, como predisse Isaías, nestes termos: “Regozija-te, estéril, que não davas à luz” - e estéril era a Igreja que, antes, não dava nenhum filho a Deus - “grita e chora, tu que não tiveste dores, porque os filhos da abandonada são mais numerosos que os filhos da que tinha marido” (Is. 54,1; Gál. 4,27). A antiga Sinagoga tinha por marido a lei.

A incorporação dos Gentios
95. Moisés diz, no Deuteronômio, que os gentios estarão à frente e o povo incrédulo atrás. E pouco depois: “Provocaste meu zelo com vossos não-deuses; irritaste-me com vossos ídolos. Eu provocarei vosso zelo com alguém que não é meu povo e vos irritarei com um povo insensato” (Deut. 32,21). Pois, abandonando ao Deus verdadeiro, adoraram falsos deuses, mataram profetas de Deus e profetizaram por meio de Baal, que era um ídolo dos cananeus; rejeitaram ao verdadeiro Filho de Deus ao elegerem Barrabás, um bandido detido em flagrante homicídio, ao abjurar do rei eterno e reconhecer como rei a César, que foi perecível. Por isso, Deus decidiu entregar sua herança aos insensatos gentios e àqueles que não eram cidadãos da cidade de Deus e que desconheciam quem era Deus. Pois bem, visto que por esta chamada nos foi dada a vida, tendo Deus restaurado em nós a fé de Abraão n’Ele, não devemos voltar atrás, isto é, à antiga legislação. Porque fomos acolhidos pelo Senhor da lei, o Filho de Deus, e, por meio da fé n’Ele, aprendemos a “amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a nós mesmos”. Pois o amor a Deus exclui todo pecado e o amor ao próximo não causa mal a ninguém.

A superação da Lei
96. Portanto, não necessitados da lei como pedagoga, eis que aqui falamos com o Pai e estamos na sua presença, convertidos em crianças sem malícia e presos à justiça e honestidade. A lei, com efeito, não afirma mais “não cometerás adultério” àquele que sequer deseja a mulher do próximo; ou “não matarás” àquele que erradicou de si a ira e a inimizade; ou “não cobiçarás o campo de teu vizinho, seu boi ou seu asno” àquele que não tem ambição por coisas terrenas, mas que visam os bens celestes; nem sequer “olho por olho, dente por dente” àquele que não tem inimigos e trata a todos como próximo e, por isso, não levanta a mão para se vingar. Nem se exige os dízimos de quem consagrou a Deus todos os seus bens e deixou pai, mãe e toda a família para seguir ao Verbo de Deus. [A lei] já não mandará guardar um dia de descanso àquele que, todos os dias, observa o sábado, isto é, ao que rende culto a Deus no templo de Deus, que é o corpo do homem, e pratica sempre a justiça. “Prefiro misericórdia” - diz - “ao sacrifício; o conhecimento de Deus aos holocaustos. Porém, o ímpio que imola um bezerro é como se matasse um cachorro, e quando oferece flor de farinha é como se oferecesse sangue de porco” (Is. 66,3). “E todo o que invocar o nome do Senhor se salvará” (At. 2,21; Rom 10,13; Jl. 2,32 [Vulg.]); “E nenhum outro nome nos é dado sob o céu pelo qual os homens se salvem” (At. 4,12), senão o nome de Deus, Jesus Cristo, Filho de Deus, a quem se submetem todos os demônios, os espíritos maus e todas as potências rebeldes.

A salvação em Jesus Cristo
97. Pela invocação do nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, Satanás foi afastado definitivamente de entre os homens. Ali, onde alguém crê n’Ele e por sua vontade O recorde e invoque, Jesus se faz presente e atende às súplicas de quem O invoca com um coração puro. Deste modo, tendo obtido a salvação, permanecemos em constante ação de graças a Deus, nosso Salvador, que por sua grande e insondável Sabedoria, nos salva e proclama a salvação desde o alto dos céus, salvação que é a vinda visível de nosso Senhor, isto é, sua vida humana; salvação que por nossas próprias possibilidades não poderíamos alcançar. Porém, “o que é impossível para os homens, é possível para Deus” (Luc. 18,27). A este respeito, diz Jeremias: “Quem subiu ao céu e se apoderou dele e o fez descer das nuvens? Quem atravessou os mares e os descobriu e aceitou em preferência ao ouro mais puro? Não há quem tenha encontrado seu caminho, nem quem conhece seu sendero. Porém, o que sabe todas as coisas, o conhece com sua Sabedoria; o que fundamentou a terra para sempre e a encheu de animais quadrúpedes, o que manda à luz e esta se expande, o que a chama e esta tremula, os astros se levantam para suas vigílias e se comprazem. Ele os chamam e [estes] atestam: ‘Ei-nos aqui’ e reluzem alegremente em honra d’Aquele que os fez. Este é nosso Deus, nenhum outro vale nada. Ele descobriu todos os caminhos com sabedoria e os comunicou a Jacó, seu servo, e a Israel, seu amado. E depois disto, fez-se ver na terra e conversou com os homens. Este é o livro dos mandamentos de Deus e da Lei perdurável, para sempre. Os que a guardarem, alcançarão a vida; os que a abandonarem, morrerão”. Chama Jacó e Israel ao Filho de Deus, que recebeu do Pai domínio sobre a nossa vida e, depois de ter recebido a vida, faz que desça sobre nós, que estávamos afastados d’Ele, quando se manifestou sobre a terra e conversou com os homens, mesclando e unindo o Espírito de Deus Pai com o corpo plasmado por Deus, para que o homem fosse à imagem e semelhança de Deus.

CONCLUSÃO (caps. 98-100)

A modo de conclusão
98. Esta é, meu querido amigo, a pregação da verdade e a imagem da nossa salvação: assim é o caminho da vida, que os profetas anunciaram, o que Cristo instituiu, que os apóstolos consignaram e que a Igreja transmite aos seus filhos, através de toda a terra. Deve ser custodiado com amor e com vontade decidida, para agradar a Deus com as boas obras e com um modo puro de pensar.

Os desvios dos hereges
99. Portanto, que ninguém pense que existe outro Deus Pai, distinto de nosso Criador, como imaginam os hereges, que desprezam ao Deus verdadeiro e criam um ídolo do deus inexistente, criando um pai acima de nosso Criador, achando que descobriram algo maior que a verdade. Na realidade, todos esses são ímpios e blasfemam contra o seu Criador e Pai, como já havíamos demonstrado na “Exposição e Refutação da Falsa Gnose” [="Contra as Heresias"]. Outros, todavia, desprezam a vinda do Filho de Deus e a economia da sua encarnação, transmitida pelos apóstolos e vaticinada pelos profetas, para a restauração da humanidade, como brevemente demonstramos. Estas pessoas também devem ser contadas entre as incrédulas. Outras, todavia, não acolhem os dons do Espírito Santo e rejeitam o carisma profético, pelo qual o homem produz frutos de vida eterna. Destes, diz Isaías: “Serão como uma árvore sem folhas e como um jardim sem água” (Is. 1,30). Estes não são de utilidade alguma para Deus, pois não produzem frutos.

Conclusão: Manter-se distante do erro
100. No tocante aos três artigos do nosso batismo, o erro motivou muitas digressões afastadas da verdade. Ou porque desprezam ao Pai, ou porque não acolhem ao Filho, falando contra a economia da encarnação, ou porque rejeitam ao Espírito, isto é, reprovam a profecia. Devemos nos defender deste tipo de pessoas, evitar os seus caminhos, se verdadeiramente queremos agradar a Deus e obter a salvação.

Nota Final do Copista
[Demonstração da Pregação Apostólica, de Santo Ireneu. Toda glória à Santa Trindade, Deus único, Pai e Filho e Espírito Santo, Providência Universal, eternamente. Amém. Recordai no Senhor do magnífico e beatíssimo senhor Arcebispo João, proprietário deste livro, irmão do santo Rei. E lembrai também de mim, pobre copista].


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